Rio, 07 (AE) - O documentarista João Moreira Salles foi indiciado no início da noite de hoje pelo delegado Luís Torres, da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) da Polícia do Rio. Ele é acusado de favorecer o traficante Márcio Amaro de Oliveira, o Marcinho VP. Salles confirmou hoje, em depoimento na DRE, na Barra da Tijuca, ter dado no ano passado, durante seis meses, uma ajuda mensal de R$ 1.200 ao traficante. O auxílio seria para que o traficante escrevesse um livro sobre sua vida no crime.
O advogado de Salles, José Carlos Fragoso, afirmou que o indiciamento representa uma "retaliação de natureza política". "Existe uma pressão para isso", disse Fragoso, sem apontar os motivos. A pena prevista para o crime de favorecimento pessoal é de no máximo um ano de prisão. Mas Salles também pode responder por crime associação ao tráfico, com pena é de três a dez anos.
O caso Salles abriu uma crise na área de Segurança Pública do governo Anthony Garotinho (PDT). Ela culminou com a demissão do então coordenador da Pasta, o antropólogo Luiz Eduardo Soares, que defendeu o documentarista, contrariando o secretário de Segurança, coronel Josias Quintal, que criticou Salles. O governador também condenou o apoio.
Em dezembro, o documentarista procurou Soares e revelou que ajudava Marcinho VP, então chefe do tráfico no Morro Dona Marta, em Botafogo, na zona sul, que havia se transferido para a Argentina. O documentarista disse que conheceu o traficante durante a produção do documentário "Notícias de uma Guerra Particular", sobre o tráfico e a violência nas favelas do Rio. Salles declarou acreditar que, com a "mesada", o traficante se afastaria do crime.Na época, Garotinho considerou Salles ingênuo e informou que ele seria investigado por ter supostamente favorecido um foragido da Justiça.
Hoje Salles contou que a "mesada" era entregue a um representante do traficante, que pegava o dinheiro todo mês em sua produtora, a VideoFilmes. Ele alegou desconhecer o nome do intermediário. A polícia também ouviu hoje Gilmara Amaro de Oliveira, irmã do traficante, que trabalhou na produção do documentário. Salles não havia deixado a delegacia até as 18h30. O depoimento começou por volta das 14h30. O documentarista chegou aparentando tranquilidade, acompanhado por seu advogado.

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