Brasília, 21 (AE) - Ao reconhecer que o salário mínimo é baixo
em discurso feito em solenidade ontem no Planalto, o presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou que ele continuará baixo enquanto permanecer atrelado à Previdência.
Em discurso de mais de uma hora, Fernando Henrique fez um balanço das crises financeiras desde que assumiu o governo, ressaltando a força do País em enfrentá-las, afirmou que o desemprego exige uma política com "P" maiúsculo e numa crítica indireta aos empresários, negou que as privatizações tenham contribuído para o sucateamento da empresa nacional.
"Quem falar de sucateamento, creio que está com o cérebro sucateado", ironizou, depois de citar diversos exemplos sobre a participação de empresários brasileiros na privatização do setor energético, de telefonia, de petróleo.
O presidente também citou levantamento, feito pelo seu ex-assessor Luciano Martins, que mostra que embora tenha havido abertura da economia, a empresa brasileira ainda continua forte no País. "Talvez os nomes que cintilavam no passado tenham perdido seu brilho, mas não houve perda de dinamismo no setor privado", insistiu.
Fernando Henrique também criticou o uso dos recursos do Fundo de Assistência ao Trabalhador, afirmando que se gasta muito dinheiro e se obtém pouco resultado. "É preciso reavaliar os programas para se conseguir efeitos práticos, essa é uma questão desafiadora."
Ao comentar que o salário mínimo é baixo porque está atrelado à Previdência, o presidente fez referência ao problema do crescimento do trabalho informal. "Há alguma coisa que não está certa aí e essa coisa chama-se legislação", argumentou o presidente, ressaltando que não tem sido possível vencer "preconceitos" em relação à mudanças na legislação trabalhista.
O presidente voltou a condenar as análises pessimistas sobre a recuperação econômica brasileira e comentou que as taxas de investimentos estrangeiros direto têm superado as expectativas do governo e a arrecadação do ano passado. Até maio, de acordo com o presidente, o País já recebeu US$ 10 bilhões. "Se mantivermos o ritmo será suficiente para cobrir o déficit de contas externas", afirmou o presidente. "Menos de seis meses depois da desvalorização, temos condições de fazer forte aposta no desenvolvimento do País", acrescentou.
Fernando Henrique também comemorou os bons resultados obtidos pelo governo no leilão das áreas de exploração de petróleo. "Flexibilizamos a exploração do Petróleo, mas não em detrimento da Petrobrás", ponderou. O presidente lembrou ainda que nos próximos 10 anos o governo irá arrecadar US$ 50 bilhões em royalties. Fernando Henrique afirmou que o Brasil não pode deixar "escapar sua grande arma" frente ao comércio internacional, que é o Mercosul.
Na reunião que será realizada no Rio de Janeiro em 28 e 29 de junho, o presidente pretende insistir numa maior aproximação entre o Mercosul e a União Européia (UE). "Temos de fazer vale os nossos direitos e já que há um processo de globalização, vamos fazer as coisas com regras universais e não discriminatórias", ponderou.
Para o presidente, nem mesmo o fato de a UE ter se negado a abrir agora as negociações para a criação de uma área de livre comércio entre os dois mercados deve desestimular o Brasil. "Tenho convicção de que vamos conseguir crescentemente essa igualdade e que essa insistência nossa acabará dando frutos já agora no Rio de Janeiro, mesmo que esses frutos sejam sementes."

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