Salário maior e mais crédito não provocam crescimento imediato15/Mar, 18:03 Por José Antonio Rodrigues São Paulo, 15 (AE) - "Melhor está, mas ainda não dá para abrir champanha". A frase, do vice-presidente do Sinduscon-SP, Eduardo Zaidan, sintetiza o pensamento de analistas e empresários sobre a possibilidade de a melhora da economia ser mais acentuada a partir de agora. Motivada pelo possível reajuste do salário mínimo, pelo novo teto do funcionalismo e pela expansão do crédito, será que a economia pode crescer mais que os 4% previstos pelo governo, ou os 3,8% estimados pelos empresários da indústria paulista? Eles dizem que não. E o motivo é simples, a contenção da renda, da massa salarial, não ratifica otimismo maior do que o sentimento de que a economia virou de mão a partir do final do ano passado. Na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) a questão do crescimento está em pauta. Mas a expectativa ainda é a de que não há renda suficiente para subsidiar expansão maior. Os empresários que compõem o Conselho Superior de Economia da entidade concluíram que há alguns gargalos de fornecimento de matéria-prima, mas nada que possa impedir a evolução natural do PIB este ano. "Sabemos que alguns setores estão no limite da capacidade, mas não há no momento possibilidade de crescimento muito elevado do consumo, porque não há renda", disse o diretor-adjunto do Departamento de Pesquisa e Economia, José Roberto Faldini. A contenção dos salários foi imposta, segundo a Fiesp, por dois drenos de recursos permanentes que impediram a distribuição de renda: juros e impostos. "Todo o ganho de produtividade da indústria foi para juros e pagamento de impostos e a massa salarial do País não cresceu", argumentou Faldini. O crescimento de demanda que houver, admite ele, será pela redução da inadimplência e volta de consumidores ao mercado mas isso não será suficiente para uma expansão fora das expectativas. Eduardo Zaidan, do Sinduscon, acredita que a liberação do compulsório, teto salarial, salário mínimo, nada disso é suficiente para alavancar a economia mais do que os previstos 3 5% a 3,7%. O crescimento da construção civil, segundo ele, é inercial e este ano deve chegar a mais 5,5%. "É um cenário muito melhor do que traçamos no ano passado. Expansão do emprego só deveremos ter a partir de maio. Não podemos esquecer que a economia estava doente. Agora, no máximo, está em fase de recuperação da saúde". Ele não se queixa de problemas de gargalos. "Se houver obra para fazer, o resto a gente se ajeita", diz. A análise dos economistas do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese) vai no mesmo sentido. Se houver aumento do salário mínimo na proporção que desejam os defensores da idéia dos US$ 100, PFL e PT, serão beneficiados 433.522 trabalhadores da administração pública nos três níveis, federal, estadual e municipal, que ganham até um salário mínimo. Há mais 447.786 que recebem entre um e dois salários mínimos e que deverão ser alcançados de alguma forma pelo reajuste, se ele for aprovado. Os dados foram retirados do relatório PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio) de âmbito nacional. "É um impacto macroeconômico pequeno", diz Antônio Prado, economista do Dieese, quando muito de cerca de R$ 45 milhões por mês. Já nos salários dos aposentados há um significado maior, diz Prado. Segundo o relatório PNAD de dezembro de 1998, a PEA tem 76,88 milhões de pessoas, o total de previdenciários é de 18.834.587 pessoas. Desses, 12.039.300 recebem na faixa de um salário mínimo e serão diretamente beneficiados pelo aumento se ele vier a ser concedido. Desses 12 milhões, pouco mais da metade, 6,175 milhões, são do meio rural. Segundo Prado, muita gente será alcançada e os beneficiados terão uma expressiva melhora de vida. "Obviamente esse dinheiro irá todo para o consumo". Mas ele explica que o impacto na inflação é mínimo e afeta muito pouco o consumo agregado. Porque 10% dos mais pobres participam com apenas 1,2% da renda do trabalho; os 20% mais pobres participam com 3,5%; e os 50% mais pobres com 13,5%. "Do ponto de vista do agregado, portanto, o impacto é mínimo", diz ele. Mas reconhece que, nas contas públicas, a pressão será maior por causa da Previdência. Prado acredita que a expansão do crédito poderá ter efeito maior. "Se houver queda nos juros, essa expansão vai resultar em consumo, mais emprego e poderemos ter o quadro do início do Real". Outro analista, o economista Fábio Pina, da Federação do Comércio do Estado de São Paulo (FCESP) pensa na mesma linha. Ele imagina que para a indústria crescer 7% em média no ano, sua expansão mensal terá de ser de 5% a 6% ao mês. Como o PIB nacional alcança metade do desempenho industrial, ele imagina que a taxa de crescimento do PIB fique exatamente nos cerca de 4% projetados, ou até um pouco menos. Um dos setores que certamente crescerão acima da média é o automotivo, mas esse vem de "uma ociosidade monstruosa", diz ele. Pina imagina que possa haver gargalos em alguns setores, por falta de matéria-prima ou estrangulamentos impostos pela precariedade da infra-estrutura. A contenção da renda salarial, para ele, é um dos motivos dessa limitação de consumo. Mesmo considerando a queda da inadimplência, o aumento do mercado de crédito e a possibilidade de reajuste do salário mínimo. A primeira coisa a considerar, diz, é que o comportamento da inadimplência não é tão uniforme. "Sempre que ela cai, cria-se um tomador de crédito potencial. Mas não se pode afirmar que à queda se seguirá um período de estabilidade ou nova onda de inadimplência", argumenta. Quanto à concessão de crédito, também tem dúvida, por exemplo, sobre o prazo de comprometimento da renda do consumidor que pode ser de até 36 meses. Às vezes, mais que isso. E tem uma explicação sobre o crescimento do mercado de crédito que vai continuar a aumentar: "Cresceu principalmente para o consumo porque as instituições querem novas opções de ganho. Elas captam CDB a 17% e repassam ao governo a 19%, vão continuar com os títulos públicos, mas vão jogar um pouco no crédito pessoal, no qual pulverizam o risco e têm mais liberdade". Mas apenas uma parcela do crédito será destinada às pessoas físicas, cerca de R$ 25 bi a R$ 30 bi, ou cerca de 10% do total. E isso, na sua opinião, não será suficiente para gerar um crescimento permanente do consumo. "No máximo acontecerá uma bolha", diz. Como o governo está atento às pressões inflacionárias, se houver risco o Banco Central vai intervir. O reajuste do salário mínimo também não assusta. Pina concorda que os recursos irão diretamente para quem pode consumir. Mas argumenta que o governo fará um esforço extra para reaver o dinheiro que a Previdência perder com o aumento dos benefícios: "O Everardo vai tirar esse dinheiro de algum lugar". Também nesse caso, o risco é ocorrer alguma oscilação mais acentuada na inflação e, novamente, a aposta é na administração do BC, via política monetária. Outro economista, Marcel Solimeo, da Associação Comercial de São Paulo, acha que o impacto da queda da inadimplência bate diretamente no consumo. Primeiro porque reduz a taxa de juro, depois porque reabilita consumidores. Mesmo assim, ele estima que o desemprego esteja estabilizado e que a análise dos números de consultas ao SPC não alicerçam um aumento fora do padrão no consumo.

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