Saída é reeducação da vida familiar
A nutricionista Andrea Vieira, do Instituto Nacional de Cardiologia de Laranjeiras (INCL), afirma que deve haver uma reeducação da vida familiar, para a criança consumir poucas calorias. Atividades físicas como natação devem ser incentivadas. A alimentação deve ter horários regulares: seis refeições diárias com intervalo de três horas. Evite alimentos ricos em gordura e nada de refrigerantes. Prefira sucos naturais. Fast-foods devem ser banidos. Evite embutidos (presunto, mortadela, salsicha, linguiça) e vísceras (fígado, coração, moela). Prefira caldo de feijão, beterraba e folhas verde-escuras, que contêm mais ferro. Evite biscoitos recheados, doces, chocolates e balas. Dê preferência a alimentos ricos em fibras.
O número de calorias do hambúrguer fast-food triplicou em 20 anos: em 1980 tinha 627 kcals e em 2000 passou a ter 1.805 kcals. Cada três simples balas somam 125kcals. Um saco de pipoca grande, sem manteiga, tem 250kcals.
Nina Anselmo sempre foi uma criança que comeu bem e de tudo. Desde pequena, era mais para barrigudinha mas, acreditava a pediatra, nada que não se resolvesse com o crescimento. Depois dos 4 anos, começou a ganhar peso e não cabia mais nas roupas de sua idade: a calça apertava na cintura e ficava sobrando bainha. Mãe e pai começaram a se preocupar.
''Notei que a Nina, apesar de destoar das amiguinhas pela altura, estava ficando gordinha. A pediatra confirmou e recomendou redução de guloseimas e atividades esportivas'', diz sua mãe, Luciana Anselmo.
Mãe e filha foram então a uma nutricionista especializada em crianças: ''Na terceira consulta, a médica chegou a cogitar a possibilidade de dar remédios para a Nina. Achei um absurdo!'', conta Luciana.
Foram em outra, desta vez uma nutricionista que ensinou receitas saudáveis e criativas, como sanduichões recheados de salada e queijo-de-Minas, para um dia em que a menina não quisesse jantar. E incentivou que se levasse à mesa o hábito de comer saladas, coisa que Nina faz hoje espontaneamente. ''A maior dificuldade para uma criança perder peso é o limite dos pais'', afirma.
Hoje, Luciana restringe as escapulidas para os fins de semana e tenta de segunda a sexta-feira manter um cardápio mais regrado. Nina faz também natação e vôlei. ''Elogio o fato de ela ter perdido peso e lembro sobre o cuidado que precisa ter para não voltar às restrições. A Nina é muito vaidosa, e ela está bem hoje. Tem uma boa auto-estima e se sente feliz por ter perdido peso. Está cheinha, mas nada que preocupe mais como era antes''.
Para o pediatra Pedro Solberg, o peso varia muito de criança para criança e só deve ser motivo de preocupação quando está desproporcional à estatura: ''Há uma faixa grande de normalidade. A criança de 1 ano tem como peso médio 9,5 quilos. Mas são normalíssimas também as que pesam 7,8 quilos e as que têm 11,2 quilos. Tem que ficar de olho na atividade física da criança, porque toda caloria só tem dois caminhos: ou é transformada em gordura ou em energia. Uma causa importante e moderna da obesidade é a inatividade, o tempo passado em frente às telas de TV, computador e jogos eletrônicos''.
Incentivar a atividade física é justamente o que o colégio Cruzeiro de Jacarepaguá vem buscando. Por uma iniciativa do coordenador de educação física e atividades diversificadas da escola, Marcos Schupp, em parceria com o endocrinologista Walmir Coutinho, foi traçado um mapa da obesidade entre os alunos. Foram medidos altura, peso e percentual de gordura de 785 crianças com idades entre 2 anos e meio e 12 anos: destas, 113 (14,39%) estão obesas e 148 (18,85%) acima do peso, com risco de se tornarem obesas. Antes mesmo de ter os resultados na mão, a escola já estava oferecendo dieta.
Stefan Faller Fahrnholz, de 10 anos, e Cecília Almeida Costa Braga, de 10 anos, fazem parte do programa. Eles entram numa fila especial na hora do almoço e seguem um cardápio menos calórico. Recebem ainda orientações das nutricionistas para não misturar dois tipos de massa num mesmo prato e de só ingerir doces uma vez na semana. Não podem ''assim como todos os matriculados no colégio'' levar guloseimas nem refrigerantes para a hora do lanche. A iniciativa tem dado certo e é uma das estratégias de médicos, nutricionistas e educadores de virar o jogo e vencer o crescimento da obesidade na população infanto-juvenil.
''Damos mesmo muita ênfase à atividade física: a natação é obrigatória para as crianças do integral e elas ainda podem optar entre ginástica olímpica, capoeira ou judô. Buscamos ainda intensificar a parceria com os pais. Não adianta a criança se alimentar bem na escola e chegar em casa e se alimentar inadequadamente'', explica Schupp.
Stefan, que perdeu três quilos desde que passou a ter orientação nutricional, faz natação e capoeira na escola. Doces, uma vez na semana. ''Refrigerante eu só tomo no fim de semana. E no colégio recebi a orientação de não misturar massa com arroz e de comer verduras e legumes'', diz o menino, que está na faixa etária, de 7 a 12 anos, que apresentou o maior número de obesos (60 de um total de 418, que significam 14,35%) e de crianças com sobrepeso (22,72%).
Rodrigo Pupe Barroso, de 12 anos, ainda não consegue entrar na fila especial do refeitório da escola. Dos alimentos saudáveis e pouco calóricos ele só gosta de beterraba e tomate. Alface, blargh! ''Gosto mesmo de pizza, feijão, arroz e farofa'', diz ele, que faz judô, futebol e natação e para quem o problema dos quilinhos a mais parece estar mais associado à genética do que aos hábitos alimentares e ao sedentarismo.
Segundo os médicos, a genética tem uma boa parcela de culpa no problema da obesidade: 30% das causas estariam ligadas ao DNA (mas numa pessoa obesa, a genética pode ter 90% de responsabilidade) e 70% ao ambiente. ''Ainda não há um remédio que combata o problema genético da obesidade. Mas os hábitos de vida podem, sim, ser alterados. Na China, por exemplo, 30% das crianças entre 2 e 6 anos são obesas desde que o fast-food passou a fazer parte do cotidiano delas'', explica o especialista Walmir Coutinho.





