Brasília, 11 (AE) - Um possível pedido de demissão do ministro da Justiça, Renan Calheiros, poderá ser o primeiro passo para as mudanças pontuais que o presidente Fernando Henrique Cardoso pretende fazer em seu ministério. Fernando Henrique não tomará a iniciativa do rompimento, que poderia ser desencadeada com a saída de Renan, porque não quer se desgastar. "Eu não tomarei a iniciativa, mas não farei esforço para manter o PMDB na aliança", disse o presidente a um interlocutor próximo.
Segundo ele, Fernando Henrique não deseja receber um pedido de demissão de Renan, mas se ele for apresentado, será prontamente aceito. "O presidente não está insatisfeito com o trabalho que Renan vem desempenhando e acredita que ele foi vítima da situação", argumentou, explicando que na visão do Planalto Renan foi usado como massa de manobra tanto pela Polícia Federal - que não queria perder o comando do combate ao narcotráfico - quanto por alguns caciques do partido. "Não cabe ao Palácio romper a corda, mas ele tem que mantê-la esticada, jamais cedendo aos caprichos do PMDB." Aos assessores políticos mais próximos, Fernando Henrique vem repetindo que o PMDB, como um dos partidos que compõem a base, "será tratado com lealdade", mas que ele não fará "mais nenhuma concessão".
O relacionamento entre o partido e o governo, que nunca foi exemplar, vem se desgastando ao longo desse segundo mandato, com duas ameaças de expurgá-lo da base. "O presidente não vai tomar a iniciativa do rompimento, mas não existe mais o medo de melindrar o PMDB, porque eles conseguiram levar o presidente ao seu limite", afirmou um ministro. "A idéia não é excluir o PMDB, mas se aliar à banda boa do partido e excluir a banda pobre, ou seja, os que desrespeitarem a autoridade do presidente", completou.
Na avaliação de caciques do PFL e PSDB, as lideranças que vêm afrontando a autoridade do presidente não têm poder e ficarão com um partido rachado. "Quem será Renan, quem será Padilha, se deixarem o governo? Eles não existem politicamente"
alfinetou um cacique pefelista. "Nem Jáder, nem Geddel têm base partidária em seus Estados", completou.
Segundo um interlocutor, no auge da crise dessa semana, o senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA) argumentou sobre esse problema com o senador Jáder Barbalho (PMDB-PA): "Vamos falar francamente: se o PFL sai do governo, o governo leva parte do PFL, mas do PMDB o governo leva a metade", teria dito. E o encontro entre o governador paulista, Mário Covas, e o Antonio Carlos já foi o primeiro encaminhamento para a construção de uma base forte para o governo, como alternativa para um rompimento com o PMDB.
Jáder concordou com a avaliação e acabou recuando e evitando a saída de Renan naquele momento. O único perigo, na visão do Planalto, é que ao romperem com governo as lideranças se unam ao governador mineiro Itamar Franco. Os peemedebistas reconhecem que um rompimento deste momento poderia significar um racha no partido, mas apenas temporário. "Quando os reflexos negativos do governo, desemprego, pressão de prefeitos começarem a aparecer, eles serão pressionados pelas bases e acabarão deixando o governo", disse um peemedebista.
Fernando Henrique tem mantido em segredo as mudanças pontuais que pretende fazer em seu ministério. "Ninguém sabe o que acontecerá, porque o próprio presidente ainda não sabe o que quer", comentou um importante cacique da base aliada. Mas todos são unânimes em afirmar que as escolhas serão pessoais, e entre pessoas leais a ele.
"As indicações não terão mais caráter partidário, de cota de partido." Fernando Henrique pretende trocar ministros que não estejam apresentando um bom desempenho frente a pasta ou com problemas políticos.
O presidente vem salientado sua satisfação com o núcleo econômico - Pedro Malan (Fazenda), Pedro Parente (Orçamento), Clóvis Carvalho (Casa Civil) e Armínio Fraga (Banco Central) - e tem dito que, hoje, sua disposição é de ir com eles até o final do segundo mandato. "A economia está dando uma resposta ótima"
pondera o presidente.
Mas os mesmos elogios não são feitos a ministros como Celso Lafer, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio e Francisco Turra, da Agricultura. "Apesar de serem boas pessoas, o desempenho frente a pasta está muito aquém das expectativas", argumentou um interlocutor do presidente. Na cota dos problemas partidários estão os dois ministros do PMDB, Renan e o dos Transportes, Eliseu Padilha, que não estão dentro dos planos das mudanças pontuais.
As mudanças deverão abranger três ou quatro ministérios, mas não ocorreram simultaneamente. Além da saída destes dois ministros, estão sendo analisadas a criação de outros dois ministérios o de Infra-estrutura e o Desenvolvimento Urbano. O maior problema para a criação do Ministério de Infra-estrutura é que englobaria o ministério de Minas Energia, hoje ocupado por Rodolpho Tourinho, apadrinhado de Antônio Carlos. Ao amigos, o senador tem dito que as mudanças não atingirão os dois ministros do PFL, Tourinho, e o da Previdência, Waldeck Ornélas.
Na próxima segunda-feira, Fernando Henrique irá se reunir com oito ministros - que não participaram da reunião da quarta-feira passada - e dois assessores a partir das 17h30, no Planalto. Segundo o porta-voz da Presidência, Georges Lamazire, é uma reunião de coordenação do governo, que terá os mesmos objetivos da reunião passada: "procurar mais unidade na ação governamental". O presidente deixou claro na reunião de quarta que não aceitará competições públicas entre os aliados. "O presidente está impondo suas regras de convivência", explicou um assessor.

mockup