Saída de Chico Lopes do BC ajudou a manter apoio do FMI, dizem fontes
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 19 de abril de 1999
Por Paulo Sotero 
Washington, 20 (AE) - A decisão do presidente Fernando Henrique Cardoso de tirar o economista Francisco Lopes da presidência do Banco Central (BC), no início de fevereiro, foi crucial para o País manter o apoio do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, depois da mudança do regime cambial e da desvalorização do real. De acordo com fontes, um fato decisivo para o afastamento de Chico Lopes foi uma a iniciativa de Washington transmitir ao Palácio do Planalto a expectativa de que o governo brasileiro deveria falar com uma só voz na área econômica - a do ministro da Fazenda, Pedro Malan.
A tentativa de preservar a banda cambial feita por Chico Lopes, em meados de janeiro e a relutância dele em elevar a taxa de juros ao patamar recomendando pelo FMI depois da flutuação da moeda tinham criado fortes dúvidas na capital americana sobre a competência dele para exercer a presidência do BC. O desdém que Chico Lopes mostrou pelos economistas do FMI e do Tesouro, durante reuniões de emergência em Washington, logo depois da mudança do regime cambial, também não o ajudou na capital americana. Mas, de acordo com as mesma fontes, em nenhum momento se levantaram dúvidas sobre a integridade pessoal do ex-presidente do BC.
As informações reveladas pela CPI na noite de ontem (19)
indicando que Chico Lopes teria mantido uma relação de negócios com os ex-sócios da empresa de consultoria Macrométrica, depois de assumir uma diretoria do BC, colocaram o assunto hoje no radar do mercado e dos gabinetes oficiais em Washington. "Os fatos revelados a partir da última sexta-feira (16) são potencialmente graves, tiveram impacto na bolsa no Brasil ontem e hoje, e as pessoas aqui estão começando agora enfocá-los e a querer saber mais sobre o assunto", disse o economista Paulo Leme, principal analista do banco de investimentos Goldman Sachs
em Nova York.
A preocupação, compartilhada pela área oficial em Washington, é que a controvérsia aumente, atinja a credibilidade do BC e do próprio governo, no momento em que a economia brasileira mostra uma capacidade de reação e o País está lançado numa operação de volta ao mercado de capitais. A depreciação do real é um indício de que o BC poderá ter de pagar mais do que gostaria pela emissão de pelo menos US$ 1 bilhão em bônus de cinco anos que está oferecendo ao mercado. "A questão é se as más notícias da CPI anularão as boas notícias da economia", disse um operador. Fontes do mercado previram hoje que o presidente do BC, Armínio Fraga Neto, será perguntado sobre o escândalo, no almoço fechado que terá amanhã (21) em Nova York com investidores interessados no novo bônus brasileiro. Fraga Neto, aparentemente, não acreditava, no início, que a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) pudesse causar danos. Segundo a assessoria dele, o presidente do BC não pretende falar sobre o assunto porque não sabe mais do que está nos jornais e se trata de uma matéria sob investigação. Só se pronunciará sobre a emissão dos bônus depois que a operação for concluída na sexta-feira (23) porque assim manda a lei que rege colocação de dívida no mercado americano.


