Saiba como foram as 12 horas de negociação entre PM e sequestrador
Capitão que acompanhou a operação em Londrina detalha as estratégias usadas e explica por que a entrada tática no apartamento foi adotada como último recurso
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quarta-feira, 12 de agosto de 2026
Capitão que acompanhou a operação em Londrina detalha as estratégias usadas e explica por que a entrada tática no apartamento foi adotada como último recurso

Após mais de 15 horas sendo mantidos como reféns dentro do próprio apartamento e mais de 12 horas de negociações, um casal de idosos, com idades entre 65 e 70 anos, foram resgatados pela polícia na madrugada desta quarta-feira (12). Apesar de abalados, eles estão bem e foram acolhidos pelos filhos. O agressor, identificado como Roberto Liberato, de 46 anos, foi atingido, pela PM (Polícia Militar) com uma arma de choque e não resistiu. O corpo do homem está no IML (Instituto Médico Legal) e ainda não há previsão de quando será liberado à família.
O capitão do 5° BPM (Batalhão de Polícia Militar) de Londrina, Emerson Castro, acompanhou durante toda a terça-feira (11), do começo ao fim da operação de resgate às vítimas, que terminou apenas durante a madrugada. O diálogo, segundo ele, foi o que conduziu grande parte das negociações, buscando a rendição do agressor. A operação de adentramento tático ao imóvel, por outro lado, foi utilizada como última opção, já que o homem se mostrava irredutível e mais agressivo, além de que, nos últimos momentos, os agentes não conseguiam mais ouvir as vozes dos idosos.
Gerenciamento de crise
O capitão explica que o gerenciamento de crise é uma matéria que faz parte da formação dentro da Polícia Militar, sendo revista com frequência pelos agentes de segurança, e colocadas em práticas em situações como essa, envolvendo reféns, ou em momentos de atentado contra a própria vida.
A situação começou ainda durante a manhã de terça-feira (11), por volta das 9h30. A agressão inicial, envolvendo o cunhado do empresário, teria sido motivada pela intenção da família em interná-lo em uma clínica psiquiátrica. Ele não teria aceitado e partiu para cima do cunhado, que teve um ferimento na mão.
Nesse momento, o capitão detalha que o homem pediu para que a esposa saísse, sendo que ele permaneceu dentro do bloco residencial do Condomínio Quinta da Boa Vista I.
Antes de fazer o casal de idosos de refém, Liberato também invadiu um outro apartamento, no sétimo andar, agrediu três mulheres e roubou o celular de uma delas. Castro explica que a polícia conseguiu chegar à residência onde ele manteve os idosos como reféns, no oitavo andar, por conta de um rastro de sangue deixado pelo agressor no corredor, levando a equipe até o apartamento.
A partir daí, o capitão explica que o trabalho da polícia envolveu a identificação das vítimas e do agressor e o isolamento do espaço para que a negociação tivesse início. Nesse momento, foi acionada a equipe do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais), de Curitiba, que veio para Londrina para intermediar as negociações com o agressor, fazendo o gerenciamento de crise.
Início das negociações
Com a chegada da equipe do Bope, por volta das 13h, a Polícia Militar recuou para que os agentes pudessem dar inícios às negociações, mas mantiveram o controle ao acesso de pessoas no entorno do condomínio.
Além disso, também é feito um estudo de todos os equipamentos que são necessários para garantir a segurança das pessoas envolvidas, incluindo a presença contínua de ambulâncias do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) e Siate (Serviço Integrado de Atendimento ao Trauma em Emergência).
“A equipe do Bope tem uma participação totalmente diferenciada e específica voltada para a preservação de vidas e negociação com as pessoas envolvidas”, explica. O capitão pontua que os agentes “incansavelmente” esgotaram todas as alternativas de negociação, sendo o diálogo a principal delas.
Alternativas esgotadas
Durante a negociação, o capitão relatou que o homem dizia por diversas vezes que iria ferir o casal caso a polícia entrasse no apartamento e que iria se despedir dos parentes para, na sequência, atentar contra a própria vida.
“Ele era capaz de tudo e estava deixando isso muito bem claro para os policiais militares. Após se esgotarem as alternativas de persuasão e dissuasão para que ele se entregasse e liberasse os reféns, observou-se que ele não cansava e que se mantinha irredutível”, detalha. Além disso, a equipe também levou em conta o fato de o agressor não ter feito exigência alguma, além de ter ferido anteriormente membros da própria família.

Atiradores de elite
O interior do apartamento, explica Castro, era monitorado em tempo integral por atiradores de elite, posicionados em prédios ao lado, além de drones que mostravam a localização do agressor e dos reféns e o que acontecia dentro do imóvel.
Nas primeiras horas desta quarta-feira, após mais de 12 horas de negociações, o comportamento de Roberto Liberato teria começado a ficar cada vez mais agressivo, gritando e batendo cada vez mais forte contra os móveis dentro do apartamento das vítimas, diz o comandante. “Observou-se também que havia um silêncio por parte dos reféns e os policiais entenderam que a próxima alternativa de ação deveria ser o adentramento tático daquele ambiente”, relata.
Com isso, policiais que estavam de rapel no bloco desceram até a janela do apartamento para distrair e afastar o agressor das vítimas e da porta, onde havia uma barricada feita com estofados, para que os agentes entrassem no imóvel. Segundo o capitão, nenhum tiro de arma de fogo foi disparado, já que os policiais entenderam que a melhor solução para aquele caso seria o emprego de uma arma de incapacidade neuromuscular, conhecida como taser.
'Eles estavam confusos e emocionados'
Ao ser atingido, o empresário teve uma parada cardiorrespiratória. Ele foi socorrido pelas equipes do Samu e Siate, mas não resistiu e morreu no local. Ao mesmo tempo, outra equipe ficou responsável pelo resgate dos reféns, que também passaram por atendimento médico. Apesar de muito abalados, o casal não se feriu.
“Eles disseram que não foram agredidos, mas estavam bastante confusos, emocionados e acreditavam que aquilo se estenderia por muito mais tempo devido ao estado do homem, que não melhorava”, conta o capitão, complementando que, por vezes, as vítimas acreditavam que algo de ruim aconteceria e, em outros momentos, que tudo ficaria bem.
Laudo pericial
A morte causada após o uso do taser pode acontecer, apesar de não ser tão comum, de acordo com Castro, mas existe a possibilidade de que ele tivesse algum problema cardíaco desconhecido ou que estivesse sob o efeito de entorpecentes. “Somente o laudo pericial vai poder dar a causa da morte desse homem”, frisa.
Após o atendimento de emergência, que constatou a integridade das vítimas, elas foram ouvidas pelo delegado na Central de Flagrantes, assim como as outras três mulheres agredidas anteriormente pelo mesmo homem.
Recursos esgotados
O capitão Emerson Castro destaca que a operação foi de grande porte, envolvendo policiais especializados em negociações como essa que, além da capacitação técnica, também têm formação acadêmica na área da psicologia. “Eles tentaram negociar e dissuadir qualquer ameaça que esse homem pudesse realizar, mas todos esses recursos foram esgotados”, reforça.
Em operações como essa, o policial afirma que o resultado esperado era que todos os envolvidos saíssem do local íntegros e bem, incluindo o agressor. “Os reféns foram resgatados com vida, sem nenhum tipo de lesão ou agressão, mas apesar de ter sido escolhida a alternativa menos letal, infelizmente é uma fatalidade”, relata, em relação ao falecimento de Roberto Liberato.
'Voluntários'
Com a grande repercussão do caso, o capitão alerta que houve diversas especulações a respeito da motivação do agressor, envolvendo até mesmo violência doméstica. Ele garante que a versão das testemunhas, que no caso são os familiares, é de que ele apresentava um quadro de transtorno psicológico já durante a semana anterior.
Ele também esclarece que muitas pessoas se voluntariaram a ajudar no caso para conversar com o agressor, como jornalistas, padres, advogados e parentes, o que é proibido pela doutrina do gerenciamento de crise.
Segundo ele, a doutrina prevê o passo a passo a ser executado pelos agentes, sendo que nada pode deixar de ser cumprido na tentativa de solucionar a situação da melhor maneira possível. “O diálogo é técnico e envolve todo um procedimento para minimizar os riscos”, alerta, ressaltando que não é permitido colocar a vida de outras pessoas em risco.


Jéssica Sabbadini
Repórter com atuação na cobertura local.


