São Paulo, 29 (AE) - Este ano, a antecipação do anúncio do Prêmio Nobel de Literatura fez esmorecer a bolsa de apostas. Não deu tempo para o mundo literário brincar de megassena com os "candidatos". Sai amanhã (30) pela manhã o nome do vencedor de 1999, quando tradicionalmente o nome só é anunciado em outubro.
Ainda assim, é impossível escapar dos nomes tradicionais: o peruano Mario Vargas Llosa, o britânico de origem indiana Salman Rushdie, os americanos Arthur Miller e Norman Mailer, o checo Milan Kundera e o alemão Gunter Grass. A áfrica também aparece na lista das grandes probabilidades (mas sua autora mais conhecida, Nadine Gordimer, já recebeu o prêmio, em 1991).
As chances dos brasileiros mais bem colocados na tabela (João Cabral de Melo Neto e Jorge Amado) diminuíram consideravelmente com a premiação, no ano passado, do português José Saramago. Com sua lógica numérica - que tem alternado países e culturas vencedoras ao longo de 98 anos de existência -, os acadêmicos de Estocolmo devem achar que a língua portuguesa já está mais do que celebrada com o prêmio para Saramago.
Mas o próprio Saramago pensa diferente. "O Prêmio Nobel agora vai ter de voltar-se para o outro lado do Atlântico", afirmou, ao receber o prêmio no ano passado, em Frankfurt. "Com certeza deveria ter chegado ao Brasil antes do meu." O ganhador do Nobel de Literatura leva quase US$ 1 milhão pelo prêmio.
O Prêmio Nobel de Literatura é entregue anualmente desde 1901, quase sem interrupções. De acordo com o desejo expresso por seu criador, o sueco Alfred Nobel (1833-1896), o prêmio se destina a quem "tenha produzido na literatura algo de destaque no sentido idealista". Claro, o premiado deveria apresentar também grandes qualidades literárias e haver contribuído para o bem da humanidade.
O primeiro Nobel de Literatura foi entregue em 1901 a Sully Prudhomme (codinome de René François Armand), em especial reconhecimento de sua "composição poética, na qual dá mostras de suave idealismo, perfeição artística e uma rara combinação das qualidades de coração e intelecto".
A academia sempre justifica com uma frase slogan suas escolhas. Thomas Mann foi premiado em 1929 "principalmente por seu grande romance, Buddenbrooks, com o qual ele ganhou o reconhecimento como um dos clássicos da literatura contemporânea".
Nos anos de 1914, 1918, 1935 e entre 1940 e 1943, os prêmios não foram entregues. E, por quatro vezes (em 1904, 1917, 1966 e 1974) o prêmio foi dividido entre dois ganhadores. Dois autores recusaram o Nobel: o soviético Bóris Pasternak (em 1958) e o francês Jean-Paul Sartre (em 1964).
Conhecido por seu caráter politicamente correto, o prêmio nivelou, ao longo da história, autores como William Faulkner e Ernest Hemingway com políticos como Winston Churchill. Trouxe do quase anonimato a poetisa polonesa Wislawa Szymborska (em 1996) e celebrou o teatro de Samuel Beckett (1969) a Dario Fo (1997) - esta uma das mais controvertidas escolhas dos últimos tempos.
"Talvez a Academia Real da Suécia argumente que artistas performáticos devam ser considerados como poetas dramáticos e que vídeos de suas apresentações devam ser incluídos entre as obras a serem analisadas pela comissão do Nobel", escreveu um indignado Eric Bentley em 1997, após a escolha de Fo. "Os livros de Winston Churchill mereceriam o Nobel se ele não tivesse vencido a 2ª Guerra Mundial?", indagou.
O prêmio a sir Winston Leonard Spencer Churchill, em 1953, é um dos mais criticados até hoje. A academia o justificou pela maestria com que Churchill desenvolveu suas descrições históricas e biográficas e, principalmente, "pela brilhante oratória na defesa de elevados valores humanos".
O último sul-americano a ganhar o prêmio foi Gabriel García Márquez, em 1982. A academia deu-lhe o prêmio "por seus romances e contos, nos quais o fantástico e o realismo são combinados em uma enriquecido mundo de imaginação, refletindo a vida e os conflitos de um continente".
Depois de Márquez, em 1990, ganhou o poeta mexicano Octavio Paz, dotado de "inteligência sensual e integridade humanística". Desde então, espera-se que o prêmio volte à América Latina de alguma forma. Os argentinos torcem por Ernesto Sábato - Bioy Casares era melhor cotado, mas morreu sem ter tido uma chance real.
O fato é que ninguém fica alheio à agitação em torno do Nobel. Saramago recebeu a notícia de sua premiação durante a Feira de Frankfurt, no ano passado. Voltou às pressas para o pavilhão da feira e, a partir daí, passou a ser uma espécie de Midas literário. Em abril, as feiras de livros de São Paulo e do Rio chegaram a disputar nos bastidores a sua presença.

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