Safra construiu império de US$ 50 bilhões
São Paulo, 03 (AE) - O bilionário banqueiro Edmond Safra
libanês naturalizado brasileiro, tornou-se o mais conhecido integrante de uma família que está no ramo financeiro há 150 anos. Ergueu um império de US$ 50 bilhões nos últimos 30 anos, que o colocou na seleta lista dos homens mais ricos do mundo.
Embora discreto em relação à sua vida familiar, Edmond tinha influência na elite política e econômica mundial. As festas que dava anualmente em Washington durante as reuniões do Fundo Monetário Internacional (FMI) eram frequentadas por presidentes, ministros da Fazenda, presidentes de bancos centrais de vários países, milionários, políticos e dirigentes de instituições multilaterais.
Edmond, de 67 anos, era o irmão mais velho de Joseph e Moise Safra, que comandam no Brasil um conglomerado que inclui o quinto maior banco privado brasileiro e participações em grandes empresas. O banqueiro morto hoje em Mônaco não tinha participação nos negócios dos irmãos no Brasil e concentrou sua atuação na Europa e nos Estados Unidos.
Discretos e muito preocupados com segurança, os Safra costumavam ter um grande número de guarda-costas. Os primeiros seguranças teriam sido treinados por integrantes do serviço secreto israelense.
Nascido no Líbano, em 1932, Edmond Safra interessou-se muito cedo pelos negócios comandados pelo pai, Jacob, um sírio nascido em 1891.
A tradicional família de banqueiros judeus começou a negociar ouro e a financiar caravanas de comerciantes em Aleppo, atual Síria, ainda durante o Império Otomano. O nome Safra significa amarelo em árabe, talvez lembrando o comércio de ouro. O primeiro banco da família foi aberto no século XIX, com filiais em Alexandria e Istambul.
Jacob, criado por um tio banqueiro, Ezra, destacou-se pela facilidade com que fazia os cálculos mentais de conversões de moedas. Emigrou para o Líbano em 1920, para fundar em Beirute seu primeiro banco. Casou-se com uma prima, Esther, teve sete filhos - quatro homens e três mulheres. O mais velho, Elie, não se interessou pela área bancária.
Edmond, pelo contrário, foi o que mais precocemente se embrenhou nos negócios. Aos 14 anos, deixou a escola para trabalhar com o pai.Aos 16, foi enviado à Itália para abrir um escritório. Em 1948, as manifestações anti-semitas no Oriente Médio por causa da criação do estado de Israel forçaram a família a emigrar do Líbano para a Itália. Em 1951, chegaram ao Brasil.
No Brasil, a família Safra começou fora do setor financeiro, abrindo uma empresa de importação e mais tarde uma pequena indústria de celulose em Mogi Guaçu, cidade próxima a São Paulo. Em 1957, a família retoma a tradição banqueira, abre uma fainanceira, que dará origem dez anos depois ao banco Safra atual. Data desta época a amizade de Edmond Safra com o deputado Roberto Campos.
Em 1962, Edmond Safra decidiu que poderia crescer mais se fosse para o exterior. Emigrou para a Suíça e abriu um banco que logo tornou-se o sexto maior do país. Nessa época, vendeu sua participação nos negócios brasileiros. Em 1966, durante uma viagem a Nova York, percebeu o vigor da economia americana e decidiu abrir uma instituição financeira nos Estados Unidos.
O Republic National Bank of New York tornou-se conhecido como um dos bancos mais seguros e líquidos do mundo e projetou Edmond Safra. O Republic chegou a ser o décimo quinto lugar no ranking dos EUA, atuando principalmente no mercado de metais preciosos e câmbio. O Republic era um dos cinco bancos que definem diariamente o preço do ouro no mundo.
Edmond costumava citar os conselhos recebidos do pai, Jacob, que orientaram a condução dos negócios. Edmond dizia que "falava" com o pai, mesmo depois de sua morte, quando precisava tomar decisões importantes. Pelo menos um dos conselhos Edmond seguiu à risca. "É melhor que os concorrentes tenham inveja de você do que invejá-los", dizia Jacob aos filhos. Durante décadas, Edmond usou no bolso do casaco um amuleto azul para proteger-se do "olho do mal" .
O conservadorismo marcava a condução dos negócios por Edmond, que a justificava citando outro provérbio do pai: "Se você empresta dinheiro demais a alguém, transforma um homem bom em um homem mau".
O impressionante sucesso de Edmond fez com que a revista "Business Week" o chamasse de banqueiro mais bem sucedido desde os lendários Rockefellers. Centralizador, Edmond gostava de examinar pessoalmente os clientes para os quais emprestaria.
Em 1970, Edmond fundou o Trade Development Bank (TDB), e cometeu, em 1983, o "maior erro de sua vida", segundo ele próprio: vendê-lo para a American Express.
Depois de sair do banco e criar uma instituição concorrente, executivos da Amex plantaram notícias falsas na imprensa vinculando seu crescimento à lavagem de dinheiro e narcotráfico. Edmond conseguiu provar que as informações eram falsas e recebeu um pedido público de desculpas do presidente da American Express.
Seguindo a tradição familiar, Edmond sempre foi conhecido nos meios de negócios pelo conservadorismo na gestão bancária, atividades beneficentes e profunda discrição na vida pessoal.
Edmond pagava bolsas de estudos, ajudava refugiados judeus da Síria, e contribuía para o estudo da cultura judaica em universidades americanas como Harvard. A família também é conhecida pelo gosto pela arte. Além de possuir uma das maiores pinacotecas do Brasil, os Safra costumam arrematar obras em leilões internacionais para doá-las a museus. Em São Paulo, os irmãos Joseph e Moise contribuíram para a construção do hospital Albert Einstein, e para uma sinagoga no bairro paulistano de Higienópolis.
Em 1976, Edmond Safra casou-se com Lili, viúva do fundador da cadeia de lojas Ponto Frio. Os dois não tiveram filhos. Lili tem dois filhos do primeiro casamento, Adriana e Eduardo. Apesar da profunda discrição que marca a família, a partir da década de 70 e 80 Edmond passou a ser conhecido também por festas que reuniam o jet set internacional.
Numa vila comprada da família real belga na Riviera francesa, Edmond e Lili recebiam, por exemplo, o príncipe Rainier e a princesa Caroline de Mônaco. Além da vila, o bilionário banqueiro mantinha residências em Paris, Nova York, Genebra e Mõnaco. Os jantares em Washington juntavam a elite econômica e política mundial. Com grande influência na colônia judaica, Edmond Safra costumava conversar com frequência com o ex-primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyahu.
No ano passado, o mercado financeiro internacional viu com supresa as perdas do Republic National Bank of New York com a moratória da dívida russa. O banco perdeu US$ 165 milhões por ter comprado os arriscados títulos russos. Algum tempo depois, o banco americano anunciou uma reestruturação.
Em maio deste ano, Edmond Safra anunciou sua saída dos negócios. Afetado pelo mal de Parkinson, acertou a venda de sua participação em dois bancos, o Republic Bank of New York, dos Estados Unidos, e o Safra Holdings, da Europa, para o gigantesco banco inglês HSBC. Receberia US$ 3 bilhões pelas duas participações.
Além dos irmãos Moise e Joseph, Edmond deixa as irmãs Arlette, Gaby e Huguette. Edmond, Joseph e Moise são tios do ex-banqueiro Ezequiel Nasser, que trabalhou com a família até 1990 e depois abriu seu próprio banco, o Excel.





