Marcos Zanatta
A queda no movimento de sacoleiros que vão para o Paraguai, em busca de importados para revender por todo o Brasil, está afetando a economia de empresas instaladas nas margens da PR-317, na região de Maringá. Restaurantes, lanchonetes e barracas que vendem alimentos produzidos na região estão fechando as portas ou reduzindo a estrutura. ‘‘Chegamos a ter 12 empregados e hoje em três fazemos tudo aqui’’, conta a comerciante Iolanda da Silva. Ela tinha barracas nos dois lados da pista, no local conhecido como Vinheira, entre Maringá e Floresta. Hoje sobrou apenas o comércio em um lado da estrada.
Há menos de três anos, segundo Iolanda, paravam, em média, de 30 a 40 ônibus por dia na Vinheira. ‘‘Hoje a gente atende dois por semana’’, calcula. Outra mudança, segundo ela, foi o comportamento dos sacoleiros. Antes o pessoal comprava, principalmente frios, vinho e frutas. ‘‘Agora os turistas só querem uma água e alguns chegam a pedir da torneira porque estão sem dinheiro e passando até fome’’, lamenta. Iolanda culpa a mudança cambial, mas não dispensa críticas à fiscalização. ‘‘O pessoal perde tudo e fica sem condições de voltar’’, acredita.
Outra parada tradicional em Maringá, o Restaurante Georgeto, que atende ônibus de turistas e sacoleiros há mais de 10 anos, hoje tenta sobreviver do movimento da rodovia. ‘‘Se a gente dependesse do turista estávamos fechados’’, diz José Eustáquio, sócio do restaurante.
Ele lembra que nas épocas boas, há dois ou três anos, chegava a contar 200 ônibus por dia. Hoje, o movimento é considerado muito bom quando param 50 ônibus no local. Eustáquio detectou também que a maior parte dos sacoleiros desce do ônibus apenas para usar o banheiro e tomar um cafezinho.
A churrascaria, que antes trabalhava 24 horas e chegava a formar filas, agora só abre no almoço e só tem movimento nos finais de semana. ‘‘Com pessoal da região que conhece nossos serviços’’, afirma. O local atraía também os turistas que passavam com destino a Foz do Iguaçu.
‘‘Os turistas são os que vão lá passear, frequentam hotéis de categoria e cassinos no Paraguai’’. Esse pessoal, lembra ele, parava para almoçar e não tinha pressa, visitava a loja de lembranças e sempre saía com algum produto. ‘‘Hoje, o turista simplesmente desapareceu’’, lamenta. Dos 120 funcionários, o restaurante manteve 55.
Outras empresas instaladas no pátio do Georgeto sentem ainda mais a queda no movimento. ‘‘Chegamos a ter seis balconistas e uma relações públicas. Hoje estamos apenas em duas e sobra tempo’’, conta Célia Santos Silva, que gerencia uma loja de malhas ao lado do restaurante.
Ela conta que uma funcionária ficava apenas no pátio, levando compradores para a loja. ‘‘Hoje nem comprador para chamar tem’’. Célia calcula que o movimento de sacoleiros caiu em pelo menos 50% na estrada. ‘‘Mas o que falta é dinheiro porque mesmo o pessoal que comprava para revender hoje nem entra na loja’’, conta.
Na lotérica em frente ao restaurante, a queda nas vendas foi de 70%, calcula Jacira Philot, que cuida da loja. ‘‘A gente conversa muito com os que ainda passam aqui, e eles reclamam da fiscalização’’, conta ela. Para o empresário Eraldo Formagio, proprietário do Posto Marita, o movimento de ônibus caiu em pelo menos 70% no último ano. O posto foi montado na saída para Campo Mourão para atender os ônibus de sacoleiros. ‘‘A média era de 15 ou mais veículos por dia para abastecer. Hoje não passa de dois’’, revela Formagio.
Além do câmbio e da fiscalização, ele aponta o mercado interno de produtos importados como causa da queda no movimento de sacoleiros. ‘‘Hoje a mercadoria nacional do mesmo padrão ou até importadas legalmente estão com preços mais baixos’’, diz. Um cliente do posto, que tem ônibus de turismo em São Paulo, cobrava R$ 1,6 mil pela viagem.
Hoje, segundo Formagio, tem que aceitar R$ 1,2 mil que os sacoleiros pagam. ‘‘Ele me ligou esses dias e está trocando o ônibus por um caminhão’’, conta. Um empresário que também atendia sacoleiros, mas pediu para não ser identificado, critica a fiscalização. ‘‘O contrabando de verdade não vem de ônibus do Paraguai e sim de avião e navio nos grandes centros’’, diz.
Quem comemora o fim dos ônibus de turismo são os barraqueiros do contorno de Marialva (17 km ao norte de Maringá). Laércio da Silva, dono de uma das 12 barracas que vendem uva, vinho e ‘‘artesanato’’, diz que os sacoleiros só paravam para roubar.
‘‘A gente trabalhar sozinho na barraca e não tem como atender 40 pessoas de uma vez’’, afirma. Ele garante que os sacoleiros só paravam para ‘‘bagunçar’’. ‘‘Quase ninguém comprava nada. Nos últimos meses, com a cobrança do pedágio, os ônibus pararam de passar por aqui’’, diz Silva.

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