Sacerdotes questionam sexualidade
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sábado, 20 de abril de 2002
Roldão Arruda Agência Estado 
Quando se ouvem denúncias de escândalos sexuais envolvendo sacerdotes católicos, os bispos brasileiros costumam reagir com declarações de que pretendem aprimorar a formação dos seminaristas - o que seria uma forma de evitar novos casos. Mas poucas vezes falam sobre a situação do clero que já está na ativa. Uma dessas vezes ocorreu na semana que passou, durante a assembléia-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em Indaiatuba, interior de São Paulo.
Numa das sessões do encontro, o padre Edenio Valle, que também é psicólogo e provavelmente o mais respeitado especialista brasileiro em estudos sobre o clero, revelou aos bispos que 10% dos 16.500 sacerdotes existentes no País mostram-se inseguros quanto à sua maturidade afetiva-sexual.
Não é uma taxa muito diferente da que se pode encontrar em outros grupos, de engenheiros, jornalistas, advogados ou médicos. Mas torna-se preocupante no caso do clero, por causa de uma questão específica: o celibato. Em sua exposição aos bispos, numa sessão fechada da assembléia, Valle observou que o ideal de vida celibatária proposto pela Igreja só é viável se a pessoa tiver maturidade em termos afetivos e sexuais.
O que o padre Valle apresentou aos bispos foi a versão preliminar dos resultados de uma sondagem de cunho psicossocial que ele realizou em fevereiro com 341 sacerdotes participantes do 9º Encontro Nacional de Presbíteros (ENP). A maioria dos que responderam ao questionário apresentado por ele foi ordenada há menos de 15 anos e trabalha em paróquias. Representa o clero jovem, à frente do trabalho pastoral.
O objetivo do estudo, ainda em andamento, é avaliar o grau de satisfação e de realização dos padres. Em outras palavras: eles estão felizes? A maioria está. Mas o grupo dos que apresentam dificuldades é significativo e merece mais atenção dos bispos.
Dois exemplos: 17% dos entrevistados não se identificam plenamente com a pastoral de sua diocese, o que é preocupante, considerando-se que são os encarregados de levar adiante a pastoral. Outros 51% não estão completamente seguros quanto ao futuro. Um grupo bem menor, mas não insignificante, de 3% mostra descontentamento no diálogo com os superiores.
À apresentação do padre Valle seguiu-se um debate. Alguns bispos consideraram preocupantes os resultados da sondagem, considerando que os padres entrevistados foram eleitos por seus pares para participar do encontro nacional onde foi feita a pesquisa. Representariam a nata do clero. Outros consideraram o material pouco representativo. Ou criticaram o viés psicossocial. Um bispo ressaltou o caráter especial da missão do padre: A vida sacerdotal não é natural, nem preternatural, nem antinatural, mas sobrenatural
Um dos momentos dramáticos da reunião foi quando o bispo da Diocese de Toledo, no Paraná, d. Anuar Battisti, de 49 anos, perguntou ao plenário: O que vamos dizer à mídia, hoje, após essa onda de denúncias contra membros do clero? O que eu vou dizer a mídia?D. Anuar propôs que a questão sacerdotal seja o tema da assembléia-geral da CNBB em 2003, recebendo o apoio de vários colegas.


