Sabatina se transforma em palanque para idéias de senadores
Brasília, 26 (AE) - As quatro horas de sabatina do presidente do Banco Central, Francisco Lopes, hoje, serviram mais para seus interlocutores dizerem o que pensam sobre a política cambial do País do que para ele se aprofundar nas idéias que pretende desenvolver no cargo. Os parlamentares falaram pelo menos três vezes mais do que Lopes. Em vez de fazer perguntas, senadores como Lauro Campos (PT-DF) e Roberto Requião (PMDB-PR) aproveitaram a ocasião para dizer o que pensam sobre a política econômica. Não de forma direta, mas fazendo comparações com a mitologia grega e com o livro infantil "Alice no País da Maravilhas".
O senador Jefferon Péres (PSDB-AM) mostrou sua perplexidade diante dos "descaminhos" da política cambial". Ele centralizou suas perguntas sobre as medidas "falhas" do governo no encaminhamento de medidas para segurar o real. As respostas de Lopes não satisfizeram ao senador. "Como eu sei que o presidente do Banco Central não pode dizer tudo o que pensa, eu vou fingir que estou satisfeito com a sua resposta", conformou-se.
A impressão que ficou, ao final da sabatina, é que a maior parte dos senadores, ao contrário do governo, possui a fórmula certa para corrigir as distorções e equilibrar a economia brasileira. Apenas 15 dos 56 membros titulares e suplentes da Comissão de Assuntos Econômico (CAE) se inscreveram para sabatinar o presidente do BC. Seis deles desistiram, ou porque tinham compromisso no horário em que seriam chamados ou porque se sentiram desestimulados em falar para uma sala vazia. No início da sabatina, estavam no plenário da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) 24 senadores. No final, apesar sete, mas eles retornaram para depositar o voto na urna.
O presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), se sentou ao lado de Lopes e do presidente da CAE, Pedro Piva (PSDB- SP). Sua presença ali foi vista como uma forma de prestigiar o sabatinado. Mas ele saiu da sala quando ficou claro que Piva não controlava o tempo utilizado por cada um dos senadores. Eram 12h10 e, até então, apenas o relator José Fogaça (PMDB-RS) e o senador Jefferson Péres haviam falado. Para ACM, o depoimento de Francisco Lopes estava indo "muito bem". "Ele é muito franco", comentou. O fato de a elevação do dólar coincidir com sabatina foi visto pelo senador como uma comprovação de que há especulação no mercado de câmbio. "Morte aos especuladores", defendeu ACM, brincando, ao final de sua constatação.
Para o senador Ney Suassuna (PMDB-PB), o depoimento de Lopes não foi melhor porque ele não tem condições de prever os aspectos externos capazes de influenciar a economia. Suassuna iria indagá-lo sobre a moratória interna do País, em decorrência das taxas de juros, mas desistiu de esperar até o início da tarde para ser ouvido. Já o senador Gilberto Miranda (PFL-AM) aguentou a espera para ouvir o presidente do BC sobre o rombo nas contas da prefeitura de São Paulo. Como Lopes não estava a par desse assunto, terminou levando uma bronca do senador. Miranda aproveitou a deixa para mostrar que está inteiramente a par da situação do município.
Ao final da sabatina, restou em meio aos papéis utilizados pelo senador um bilhete, sem assinatura. O autor pergunta ao colega "você tem a declaração de FHC sobre a moratória do Sarney?". Nenhuma pergunta sobre esse assunto ou algo aparecido feito feito ao presidente do BC.





