ACP: o oportunismo é da hora
A mais antiga entidade civil do Estado, a veneranda Associação Comercial do Paraná, doravante denominada ACP, do alto dos seus 115 anos, envereda pelo caminho do oportunismo explícito e sem tamanho. Um movimento interno toma corpo para mudar o estatuto e permitir que um alto funcionário público nomeado acumule o cargo com a presidência da Casa. De cara, a mudança mandrake do estatuto pode ser chamada de ‘‘emenda Virgilinho’’ porque está sendo montada para atender a um único objetivo: abrir as pernas, quer dizer, as portas da Velha Senhora para que o atual secretário de Indústria e Comércio do governo Requião, o jovem e rico empresário Virgilio Moreira, seja candidato e assuma a presidência da ACP em agosto, para um mandato de 2 anos, com direito à reeleição.
  Nesta semana que passou, numa reunião feita especialmente para convocar, rapidinho. uma assembléia extraordinária e emendar o estatuto, gente do calibre do economista e intelectual, professor Belmiro Valverde Castor e do ex-deputado Léo de Almeida Neves, tiveram a coragem de defender a mudança alegando que a ACP passaria a ter mais prestígio com a junção entre cargo público de alta relevância e representação civil de alto nível. Tanta palavra bonita para esconder uma manobra que, preto no branco, é a entrega do ouro pro bandido.

Política e independência
O problema aqui não se trata de pessoas, mas da razão de ser de uma entidade civil organizada. A ACP é a maior ONG do Paraná, tem mais de 8 mil filiados, representa um setor vital para a cidade, os comerciantes, e desde que o patrono da Casa, o Barão do Cerro Azul, foi assassinado na serra do Mar no século retrasado, por questões políticas, os interesses do setor batem de frente, de lado e de trás com o poder, em todas as esferas. E foi justamente estes cenários opostos que levaram os comerciantes se unirem e fundarem a ACP.
  Ora, quando as principais influências e lideranças da Casa se unem para acabar com a essência da fundação da ACP, e nomear um secretário de Estado para dirigi-la, alguma coisa está profundamente errada. De entidade respeitada e poderosa no setor, vai virar um departamento, um braço desarmado do Governo e seguir os passos oficiais como um cordeirinho carente.

Sete comunistas e a Copel
O que estes mandantes da governalização da ACP estão esquecendo é a historia da Casa. Foi graças à independência acumulada em sua história que, no começo do governo José Richa, o então presidente Carlos Alberto Pereira de Oliveira, acusou o Governador de nomear 7 comunistas como secretários de Estado. Pode-se criticar o patrulhamento ideológico-direitista de Pereira de Oliveira num momento de abertura política, mas nunca o fato dele falar em nome dos seus representados, os comerciantes, sempre mais conservadores.
  Recentemente, na gestão de Marcos Domakoski, a ACP foi a primeira entidade de peso do Paraná a ir contra a privatização da Copel. Abriu caminho para segurar a onda de liquidação dos bens públicos feita pelo Governo Lerner. O atual presidente, Claúdio Slaviero, briga por juros mais baixos e contra o absolutismo de Roberto Requião. Pontos que continuam costurando a independência da Casa.
  Diretorias mais próximas ou menos próximas do governo se sucederam na ACP, mas nenhuma delas se entregou de mão beijada ao plantonista do Palácio Iguaçu, como agora se pretende. No Paraná, a classe política se insinua a toda hora aos Governos, os industriais têm uma representação chocha, os sindicatos se rendem com mais rapidez do que se desejaria e o próprio povo não gosta de confusão. Ou seja, frouxidão aqui é mato. Agora, só falta a ACP se transformar em mais um pau mandado do Governo. Aí,danou-se.

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