RUTH BOLOGNESE
Parece mas não é
O Paraná não é petista
Minha mãe morria de medo de Fidel Castro e interpretava o comunismo sob a ótica de uma italiana criada na roça, daquelas que areava as panelas de alumínio com as cinzas do fogão à lenha. Para ela, o comunismo era uma ameaça direta ao seu patrimônio familiar. Coitada da mamãe. Mal sabia que, com os cinco alqueires de terra roxa lá perto de Mandaguaçú, no Norte do Paraná, era mais candidata a virar Sem Terra do que alvo preferencial do comunismo.
Mas os imigrantes que vieram de São Paulo, Minas e Rio Grande do Sul, pensavam assim mesmo, tinham medo de comunismo, socialismo e até de paninho vermelho. E por um motivo óbvio: vieram para trabalhar muito, o que fizeram, e para ficar ricos, o que só alguns poucos conseguiram. O restante virou remediado mesmo. Qualquer idéia de bem coletivo ia contra a propriedade privada, obtida à duras penas.
Por causa desta resistência ancestral dos colonizadores, base da nossa população, às teses de esquerda, o PT nunca foi lá essas coisas no Paraná. Quem tem avô vivo pode fazer o teste e perguntar o que ele acha do PT. Se for italiano, há pelo menos 90 por cento de chances de ouvir um porca-miséria em alto e bom som e aí nem precisa prestar atenção no resto. Se o avô for japonês, espanhol, português, holandês ou alemão, fica valendo a tradução simultânea do porca-miséria.
O fato real é que, mesmo votando no presidente Lula e agregados em geral, o eleitor paranaense sempre olhou o PT, o partido legalmente constituído com idéias à esquerda, como todo pai se comporta diante do primeiro namorado da filha: não acredita muito na conversa, deixa entrar em casa, mas não desgruda o olho, desconfiado.
Escolhas moderadas
Basta analisar o perfil dos políticos paranaenses que foram eleitos pelo PT, a começar por Londrina, o maior reduto petista do Paraná. Alguém imagina o ex-prefeito Luis Eduardo Cheida, ou o atual Nedson Micheleti, agitando bandeiras vermelhas a favor do rompimento com o FMI, ou usando o boné do Movimento Sem Terra? Aqui, o Jorge Samek, por exemplo, diretor da Binacional Itaipu, é filho de agricultores ricos da região de Foz do Iguaçu. De Samek ao deputado federal Paulo Bernardo, é tudo gente da classe média, ora rural, ora urbana, criados sem grandes luxos mas com pão de casa farto na mesa e, se voltassem da faculdade falando muito em comunismo ou socialismo, ainda levavam uns cascudos da mãe.
Plantar e colher
Ao contrário dos metalúrgicos do ABC paulista, berço do PT, no Paraná todo mundo sempre soube que ter emprego nunca deu camisa pra ninguém. O máximo que se chegou em termos ideológicos de ação coletiva foi o cooperativismo, mas como forma de enfrentar o mercado para obter melhores preços. Mais capitalista, impossível.
Por tudo isso é que as derrotas do PT nas maiores cidades do Paraná, Curitiba inclusive, não devem ser jogadas por cima das costas do governador Requião, como se ele fosse um leproso bíblico, por ter coligado o velho MDB de guerra aos petistas, No pega prá capar, Requião se situa mais à esquerda do que muito petista de quatros costados. Está assim ó, com a expurgada Heloisa Helena.
Sem tirar dos ricos
O que se cobra do PT, na verdade, é não ter cumprido o único compromisso que os levou a votar no partido: reduzir a miséria, garantir estudo para os mais pobres e na seqüência, dar um jeito na violência que um dia ou outro, atinge todo mundo. E cumprir as promessas, lógico, sem tirar um tostão dos remediados ou ricos. Como milagre não existe, olha aí a mãe jogando a estrelinha vermelha no lixo e dizendo eu bem que avisei que não ia dar certo. Mas todo paranaense fala das derrotas do PT com um brilho indisfarçável de contentamento, de quem acha muito bom descobrir, em tão pouco tempo, que nem o PT tem a chave do cofre que vai garantir a felicidade geral da nação.
É um suspiro de alívio, sim, porque se os bancos lucram mais ainda no Governo Lula e os juros da dívida externa estão sendo pagos mais em dia do que durante a era FHC, é o fim da ladainha Robin Hood do PT, aquela de tirar dos ricos para dar aos pobres.
Todos iguais
A partir de 2006 os paranaenses vão às urnas sem culpa: quer dizer, poderão escolher seus candidatos, inclusive os do PT, liberados da última obrigação de experimentar um governo mais à esquerda. Enfim, o amadurecimento político que fortalece a democracia e abre o leque para as escolhas políticas.





