RUTH BOLOGNESE
O PRIMO JACARÉ
Está bem, está bem, os curitibanos têm sim aquele sotaque terminado em ''e'' aberto, meio cantado, que transforma até uma declaração de amor em piada. ''Eu ''te'' amo'',dizem aqui, e se a gente não estiver muito, mas muito apaixonada, cai na gargalhada. Também, vamos lá, admitimos, no inverno eles dormem de ceroulas. Para os mais jovens, ou os que só vivem em climas quentes, ceroulas é a versão masculina da meia-calça, mas de algodão com um buraco na frente e sem pé. Em uso, é um horror. Se as ceroulas tem influência na performance sexual dos casais curitibanos? Claro que não. Pesquisas muito, muito discretas já provaram que os edredons de lã de carneiro atrapalham mais, porque escorregam, e aí a retaguarda gela muito rápido. Mas isso ocorre só uma vez por ano, até o 10º aniversário de casamento, quando os casais curitibanos usam toda a criatividade e se movimentam três vezes. Depois de 10 anos de casados, nem os curitibanos, nem casal algum consegue se lembrar, assim, na lata, o que significa performance, que dirá sexual...
As diferenças
São pequenos detalhes, como o sotaque aberto e o uso de ceroulas, que diferenciam Curitiba das demais cidades do Estado e levam a uma certa implicância, o que interfere na unidade paranaense. Por exemplo, os curitibanos ficam constrangidos quando o pessoal de Londrina, Maringá e adjacências, de passagem por aqui, gritam: ''Ô, leite quente'', assim mesmo, puxando o ''e''. Ninguém responde, mas que dá vontade de reagir, ah, isso dá. Se não tivesse gente na rua olhando, o guarda-chuva não atrapalhasse e a patroa largasse o braço dado, iam ver só. O curitibano anotava a placa do carro, fazia uma queixa na Ouvidoria Geral e, dentro de 2 ou 3 anos, esse pessoal do Interior ia receber um telegrama oficial tipo assim: Caro Senhor do Interior:''leite quente'' é uma pronúncia de característica regional e não deve ser motivo de aleivosias, nem de chacotas nas ruas de Curitiba, principalmente em altos brados. Ass. Sr. Curitibano Anônimo.
Os pontos em comum
Diante de incidentes tão preocupantes entre irmãos da Capital e irmãos do Interior é que todos os pontos em comum dos paranaenses devem ser valorizados - e até exaltados. Por exemplo: nosso Governador, Roberto Requi... desculpem, por favor, parem de atirar ovos e tomates. Violência não leva a nada. Claro que o Governador é curitibano, mas não, a culpa não é só nossa. Muita gente boa aí do Interior votou nele, sim. Portanto... E nós, da Capital, poderíamos revidar com Interioranos que vieram pra cá, venceram na vida, ocuparam e ocupam grandes cargos políticos e alguns até chegaram a Governador. Não vamos citar nomes, mas todo mundo aí sabe quem são.
Outros pontos
Diante do empate, prosseguimos. Nesta semana que passou surgiu no Lago Igapó II, em Londrina um jacaré. Foi surpreendido pelo fotógrafo Mário Jorge Tavares no exato momento em que dava uma geral na paisagem e veio parar na primeira página desta Folha. A foto, não o jacaré, bem entendido. Nada disse, nem lhe foi perguntado, mas seu aparecimento é um acontecimento histórico. Desde que a Viação Garcia inaugurou a primeira linha entre Londrina e Curitiba, nenhum fato foi tão importante para ligar as duas cidades como o Jacaré do Igapó.
É lógico que este animal de patas, mal-encarado e de couro grosso que, ao menor sinal de distração, arranca um braço da vítima e tem um parente famoso em Curitiba, não é nenhum político conhecido. Ele é um jacaré mesmo, gente. E, sem nenhuma dúvida, é aparentado do famoso, aí sim, do jacaré, que todo ano aparece no lago do maior parque da Capital, o Barigui. Incrível, como nenhum veterinário ou biólogo, não percebeu isso. Pelo jeitão, comparando as fotos, são primos em primeiro grau. Quem chegou aonde antes, a qual família pertence e como estão separados por 400 kms, já é assunto para um próximo capítulo...





