RUTH BOLOGNESE
Sem Heróis mas quase Santos
Afora uns entreveros no Cerco da Lapa, o assassinato do Barão do Cerro Azul na Serra do Mar e a insistente batalha do governador Roberto Requião para eleger Doático Santos como vereador em Curitiba, o Paraná não tem histórias de grandiosidade heróica pra contar. Este é um dos nossos diferenciais em relação a outros Estados, como o Rio Grande do Sul, por exemplo, onde os gaúchos amarram um lenço vermelho no pescoço e são capazes de ir até o Rio de Janeiro só para amarrar o cavalo no primeiro obelisco que encontram. Alguns retornam,outros ficam por lá.
Nós, paranaenses, não somos heróis a toda hora, mas compensamos com outras características: o clima variado nos permite colher laranjas no Sudoeste e criar búfalos no Litoral. E plantamos batata no Sul, sem ninguém ficar mandando. O frio do Sul é que levou a mulher curitibana,por exemplo,a ser conhecida no mundo inteiro como o mais perfeito cabide para um casaquinho de inverno. Em pleno janeiro,o mulherio vai de casaquinho no ombro até em roda de samba na praia.E aí a única parte que balança são as manguinhas soltas.
O clima, os casaquinhos, as batatas,ou talvez os búfalos, foram desafios diários que nos transformaram num povo cordato, crédulo,capaz de acreditar tanto nos milagres da Maria Bueno, a diarista de Curitiba, morta a facadas por um soldado no século passado, como no voto limpo de Rubens Bueno, do PPS. Só para esclarecer: a Maria e o Rubens não são primos, nem aparentados de longe. É coincidência mesmo.
O santo feito aqui
Por causa desta fé ingênua, inocente até, é que o Paraná entrou como intermediário na escolha do primeiro santo da dinastia dos Habsburgos, conforme notícia da ''Veja'' nesta semana. Os outros Estados já dizem por aí que intermediação de santidade não é assim nenhuma Brastemp, mas nós estamos muito satisfeitos,sim. O novo candidato a santo é o Imperador Carlos I, da Áustria, beatificado pelo Vaticano. A beatificação,segundo as leis da Santa Madre Igreja, só pode ser feita através de um milagre e é aí que entra o Paraná.
O milagre
O milagre foi a cura de uma úlcera varicosa na perna direita da freira Maria Zita Gradowska,polonesa que morou em Curitiba (ponto para o Paraná), em 1960, informa o Vaticano. Numa noite em que a perna doía demais, irmã Maria Zita ergueu-se na perna esquerda, apelou para Carlos I, o Imperador da Aústria e a ferida desapareceu. Tal milagre não ocorreu no Paraná, foi em Canoinhas, Santa Catarina, mas isso também não vem ao caso. Ah, e Carlos I só reinou dois anos e até hoje a destruição da Sérvia, comandada por ele, não foi muito bem contada, não. Parece que até aprovou o uso de gás mostarda contra inimigos. Mas, numa hora dessas, alguém se preocupa com detalhes?
O milagre das varizes
Bem, o que levou a irmã Maria Zita a pedir um milagre para Carlos I, Imperador da Áustria, mesmo com tanto Santo ali, a mão, é um mistério. Mas valeu mesmo o pronto atendimento. A cura de algumas varizes, vá lá, não tem aquele charme de uma doença terminal, incurável, ou de uma hecatombe bíblica, elementos que compõem os milagres históricos. Mas as varizes não deixavam a freira nem dormir de noite, não é? Se o novo Santo destruiu um País quando vivo, e curou varizes quando morto, e o milagre foi em Santa Catarina, ainda assim, o Paraná participa como um intermediário de peso na história. Afinal, que a irmã Maria Zita é quase paranaense,isso ninguém há de negar.
As vantagens
Estamos documentando a história para que ninguém ouse tirar da gente a glória de intermediar a transformação de um Imperador austríaco num santo, e saia por aí contando vantagens com o nosso milagre das varizes. Ou alguém já esqueceu o caso do topete no cabelo das curitibanas loiras, legítima criação da terra, que virou moda internacional e ninguém nos pagou os royalties? E o famoso ''Bicho do Paraná'',que sumiu em Ipanema?E a CPI do Banestado que está toda a hora nos jornais,leva até o nome de um banco daqui e ninguém lembra que começou no Paraná? E é melhor que nem lembrem mesmo.
Não, o milagre das varizes, ninguém nos tira. Vejam bem, se não registrarmos os nossos feitos,o futuro será uma incógnita. Daqui há uns 200 anos, o fantasma de EL Supremo, mesmo depois de ter destruído os transgênicos e um partido como o PMDB quando vivo, poderá curar eripsela de um contador no Piauí, quando morto.E aí, se a gente não reagir agora, é bem provável que ninguém lembre que ele foi Imperador, quer dizer, Governador, aqui do Paraná.
Seria uma pena, não seria?





