RUTH BOLOGNESE
Uma cidade e um homem
A partir de agora, será a ferro e fogo. Londrina e Antônio Belinati, o homem que mais polemizou, emocionou, orgulhou e embaraçou a cidade nos últimos 20 anos, vão se encontrar na frente das urnas no dia 03 de outubro. Esqueçam a capital, caros paranaenses, onde a Cidade Sorriso ri amarelo e segue num embate morno, entre um candidato despreparado e outro mais ainda. E mirem Londrina, nossa irmã mais impulsiva, criada entre cafezais, que montou um cenário com todos os elementos indispensáveis para fazer valer uma eleição.
Os mais sensíveis que se cuidem. Muito além de escolher um gerente para administrar a cidade, fazer uma opção ideológica entre a esquerda e a direita ou fidelizar o voto num partido, o eleitor de Londrina julgará Antônio Belinati. E independente do resultado final, pagará um preço. Portanto, não há saída, nem meio termo.
Não vamos cometer aqui o maior de todos os equívocos, o de culpar os mais pobres, com quem, de fato, Belinati, um dos últimos populistas paranaenses, fala como se fosse um igual e conquista corações e mentes. Os desvalidos, os simples, estão onde sempre estiveram, à mercê do engodo universal, e vão continuar, até que se reduzam as imensas distâncias entre o comer ou não comer, estudar ou não, pensar ou seguir o presépio. Nos últimos 5 anos, os Cinco Conjuntos, o reino mais cantado em prosa e verso da periferia londrinense, recheado de voto dos simples, não ergueu a ponte movediça para impedir a passagem de nenhum político da cidade. E o mais assíduo foi Belinati, onde fez política, no mesmo estilo que o conduziu à prefeitura de Londrina por três vezes. O método é antigo, obsoleto e leva os letrados, os remediados e os ricos da cidade a um permanente torcer de narinas. Torceu-se o nariz não só para o método antiquado da prática política mas, pelo andar da carruagem das pesquisas desta campanha, também para os Cinco Conjuntos.
Os que se julgam os mais puros guardiões do dinheiro público da nossa cidade cafeeira, orgulhosa da auto-independência política, podem pegar a primeira pedra. E atirar na própria arrogância. Ou na própria incapacidade de levar para o andar de baixo os bons propósitos que uniu promotores públicos, empresários, entidades de classe, igrejas e universitários no ''Movimento dos Pés Vermelhos'', bela referência local, que acabou desencadeando outras mobilizações contra a corrupção Brasil afora.
Vamos abrir o jogo, senhores. Estamos protegidos aqui pela certeza absoluta de que leitura de jornal é privilégio do andar de cima e, portanto, sem influência na grande massa de votos: a Londrina dos que tem consciência que sabem votar começa a ser questionada aqui fora. E deve se preocupar, mesmo, com o que os outros vão pensar. Porque a cidade ainda não tem uma resposta convincente para a pergunta óbvia diante dos índices das pesquisas: mas como, depois de tudo, Belinati sobrevive?
E vamos mais fundo, os que acompanham a trajetória política de Londrina sabem que essa bela irmã do Norte já foi a mais ousada na terra dos pinheirais, ao eleger José Richa, pelo MDB, em plena ditadura militar, e Luiz Eduardo Cheida, pelo PT, em plena onda de neo-liberalismo. Por tudo isso, o Paraná questiona agora e, a depender do resultado das urnas, o Brasil vai questionar depois: primeiro, Londrina nos dá o exemplo de maturidade política e se permite ousar, solitária, no Paraná. Depois, avança ainda mais, ao unir-se pela bandeira da moralidade e se penitenciar a céu aberto, renegando o próprio voto no ato da cassação. O Brasil se curva, respeitoso. E agora vem avalizar, pela quarta vez, Antonio Belinati?
Apelar para a incrível capacidade de uma raposa política sobreviver às adversidades, assim como culpar os pobres que não sabem votar, não convence. Mas, como, então os pobres desaprenderam? Ou raposa política é exemplar único em Londrina? Vamos esquecer, também, as alegorias de grandes doações na campanha, porque nesta ala não existem sambistas inocentes.
Como nos embates da vida, o exercício da política não vem com respostas prontas. E, também como na vida, pode obrigar um grupo ou uma cidade inteira a encarar a própria trajetória e suas mal traçadas linhas. Ninguém ouse ficar morno, virar a cara, se fingir de morto porque a consequência dos atos coletivos não discrimina, nem poupa, no particular.
Por todos os ângulos que se observa a escaldante eleição em Londrina, descobre-se que o elemento mais decisivo, vitorioso ou derrotado, é Antônio Belinati. A partir dele, serão feitas as alianças entre os demais partidos. A partir dele, o eleitor fará a sua escolha.E, a partir do destino de Belinati, Londrina julgará sua própria história.
A cada voto, uma sentença.





