RUTH BOLOGNESE
Um ano de coluna. Por conta e risco
Mulher, feia, negra, pobre e analfabeta tem futuro? Pode até ter. Mas tire daí feia, negra e analfabeta e coloque jornalista e no Paraná. Acrescente simpática, alegre e ainda ajeitada aos 50. E, de lambuja, um conceito belíssimo: independente. Então, mulher, simpática, alegre, ainda ajeitada aos 50, jornalista, independente e no Paraná. Pode ter algum futuro? Esqueça.
Alguém já disse que depois dos 40 é mais fácil uma mulher ocidental sofrer um ataque terrorista do que encontrar um marido. Quando se chega aos 50, descobre-se, um pouco tarde, é verdade, que, dependendo do marido, é melhor enfrentar o terrorista. Mas, esta é mera questão de desesperança pessoal, de interesse restrito e limitado.
O que diz respeito ao momento e ao espaço desenhado no mapa brasileiro onde habitam os paranaenses, é a atividade jornalística, exercício diário de contar e recontar um fato. E lá se vai um ano de coluna diária, com um pequeno espaço de um mês no meio, motivado pela ira de um patrão assustado, Dr. Paulo Pimentel. Demissão sumária e primeiro revés, diante da falta de opção: para onde vou agora?
De O Estado do Paraná para a Folha de Londrina, da Capital para o Interior, da meia página para uma tira, de cabo a rabo, na página, e uma solidão inexplicável. Escrever o quê para esse leitor distante, para uma cidade orgulhosa e segura de si, de clima quente e nariz torcido para o frio curitibano? Em Curitiba, falar mal do Neivo Beraldin, o deputado, era acertar na mosca da referência. Todo mundo sabia. E ria. Em Londrina, a nota sobre o Neivo só provoca o e quéco?.
Escrever no escuro, errar o nome até do prefeito, Miqueletti é com um ou dois tês, meu Deus do Céu? De repente, pode-se ousar mais na crítica, pela inexistência de vínculos diretos entre o novo patrão e o Palácio Iguaçu. Agora pode mostrar tudo? Mas quem disse que chegar de manhã numa praia de nudismo é confortável?
Trilhar o caminho, passo a passo, vamos lá. Aos poucos, se tateia. E confiança do leitor deve ser mais fácil de obter do que um marido. Sedução em forma de crítica diária, contundente, humorada às vezes, desacreditada pelo alvo, sempre. Lá vem chegando o primeiro processo na Justiça: o publicitário Cláudio Loureiro e o genro do ex-governador, Cláudio Hoffmann, se dizem prejudicados porque uma nota falou em privilégios da agência Heads no governo Lerner. Informação mais corriqueira, óbvia e de domínio público, impossível. Mas eles pretendem recuperar perdas e danos sobre um patrimônio familiar que se resume no apartamento de três quartos no Alto da XV. E ainda precisando de pintura urgente. Depois vieram outros e outros e outros. No último deles, o governador Roberto Requião obriga a ir ao Centro de Operações Especiais (Cope), onde homens armados e de fardas pretas nos chamam de dona e mandam estacionar o carro bem longe. E o assunto era cível, tratava de contratos da Copel com escritório de advocacia em Brasília! A um governador que já foi tão próximo bastava pegar o telefone. Certamente sobrariam risos e boas notas. Mas armas no coldre mandado são irresistíveis para manter a distância e escancarar poder.
Na primeira derrota, um candidato a vereador pelo PTB, de nome Abrilino Fernandes Gomes, invade a coluna e, sob o manto da Justiça, escancara no direito de resposta: men-ti-ro-sa! Na sentença, o juiz eleitoral Marco Antônio Antoniassi se coloca como testemunha-telespectador do programa do Abrilino na CNT, onde o apresentador costuma elogiar até a limpeza das latrinas dos campos de futebol de Curitiba, feudo comandado por Onaireves Moura, Giovani Gionédis e Mário Celso Petraglia. Direito de resposta publicado na coluna e o juiz Antoniassi, ainda insatisfeito, exige republicação. E tudo isso porque saí em defesa da memória de um jornalista, Alexandre Zraik, que nem podia mais se defender.
A coleguinha de tantas jornadas, Mari Tortato, hoje na Folha de S. Paulo, cobra a apuração da nota em último grau, a ausência do risco no acerto, como se o caminho da urgência para o fato em plena ebulição não fosse no fio da navalha. E afia a pergunta irônica, como tão bem o fazem os bons repórteres: onde, a grande jornalista?.
Um dia atrás do outro, nem sempre uma coluna diária bem feita, quase nunca próxima do ideal, e vem o cansaço do fim da tarde para assoprar sorrateira vontade de parar. Aí está o Conselho de Jornalistas, contribuição do Governo Lula para fiscalizar cada letra, cada vírgula, cada sinalzinho suspeito. E minha tira, indefesa no canto da página, como fica? Advogado militante da liberdade de imprensa desde que me conheço por jornalista, René Dotti resume tudo numa frase que fica pairando no ar, como a legenda de um filme. Temos que exercer a liberdade de não ter medo. De nada. Nem da ameaça, nem da chateação. A mulher do começo, simpática, alegre, ainda ajeitada aos 50, jornalista, independente e no Paraná, já não pensa nem em parar, nem em esperar por um marido. Escreve. Quem precisa de futuro toda hora, ali, batendo na porta?





