Russos agora elogiam o antes desprezado casal Gorbachev
PUBLICAÇÃO
domingo, 19 de setembro de 1999
Por GREG MYRE 
Moscou, 20 (AE-AP) Numa estranha mudança, o casal que havia sido tão desprezado na Rússia de repente recebeu uma torrente de apoio e compaixão quando Raíssa, mulher do ex-líder soviético Mikhail Gorbachev, adoeceu. A notícia da doença levou milhares de russos a mandar cartas, flores e dinheiro à Fundação Gorbachev, em Moscou.
Algumas pessoas sugeriram dietas especiais. Outras telefonaram dizendo que rezavam pelo restabelecimento da senhora Gorbachev. Algumas ofereceram-se para doar sangue e medula óssea para transplante.
Remédios feitos de ervas chegaram da Sibéria. Uma mulher ofereceu- se para ir à Alemanha cozinhar para Gorbachev, dizendo que ele devia estar cansado da culinária alemã.
"Deve fazer parte da índole russa arrastar alguém na lama e depois elevá-la aos céus quando uma tragédia acontece", disse recentemente Vladimir Polyakov, porta-voz de Gorbachev.
Muitas cartas compassivas foram escritas por gente idosa que havia muito andava descontente com o papel de Gorbachev na desintegração da União Soviética, que resultou no caos econômico e político da Rússia.
Nos dois últimos meses, um Gorbachev entristecido, geralmente trajando blue jeans e camisa informal, foi entrevistado com frequência no hospital em Muenster por equipes de televisão russas em busca de novidades sobre o estado de saúde de Raíssa. Ele falava da esposa com afeto, e muitos russos reagiram deixando de lado suas antigas queixas contra o ex-líder soviético.
O presidente russo Boris Yeltsin, tenaz adversário de Gorbachev, distribuiu comunicado dizendo que "uma pessoa maravilhosa, uma bela mulher, uma esposa e mãe amorosa já não se encontra entre nós". Uma mensagem de Yeltsin e de sua mulher Naina a Gorbachev disse: "Aceite nossas sinceras condolências."
Brilhante, elegante e bem-falante, Raíssa era a antítese da típica mulher de um líder soviético. Com uma só exceção, Nadezhda Krupskaya, mulher de Vladimir Lenin, Raíssa foi a única primeira- dama russa a criar um papel público para si algo que poucos russos aceitaram.
"Seu destino era ajudar o marido numa missão histórica, abrir a ex-União Soviética para o mundo, torná-la uma sociedade livre e aberta", disse Anatoly Chernyayev, conselheiro de Gorbachev. "Mas não a compreenderam enquanto ela viveu, e o povo (russo) foi ingrato."
Ex-professora de filosofia, Raíssa encantou platéias ocidentais com seu intelecto, equilíbrio e roupas finas. Inversamente, os russos não gostavam dela, e Gorbachev admitiu em suas memórias que nem a mãe dele a apreciava.
"Fomos unidos acima de tudo por nosso casamento, mas também por nossas visões idênticas a respeito da vida", escreveu Gorbachev. "Nós dois pregávamos o princípio da igualdade. Tínhamos as mesmas preocupações e nos ajudávamos mutuamente, sempre e em tudo."
Raíssa Maksimovna Titorenko nasceu em 5 de janeiro de 1932, no sul da Sibéria, e conheceu Gorbachev quando ambos estudavam na Universidade Estatal de Moscou. Eles se casaram em setembro de 1953 e se mudaram para a casa de Gorbachev na região de Stavropol, no sul da Rússia, em 1955, quando ele se formou.
A senhora Gorbachev lecionou filosofia marxista-leninista em Stavropol e depois pegou um cargo de professora na escola em que se formara, a Universidade Estatal, quando o marido dela voltou a Moscou como funcionário em ascensão no Partido Comunista.
Ela deixou o emprego quando Gorbachev se tornou chefe do PC, em 1985. Ela logo atraiu as atenções com seu papel proeminente e instigava os colunistas de mexericos com uma suposta rixa com a primeira-dama dos EUA Nancy Reagan, que as duas mulheres desmentiam.
"Quem aquela senhora pensa que é?", teria perguntado a senhora Reagan depois que a senhora Gorbachev lhe fez longa preleção durante um jantar.
Os russos, acostumados a ter líderes que tratavam suas mulheres como se fossem segredos de Estado elas nunca eram vistas nem mencionadas , faziam mais ou menos a mesma pergunta. "Quem ela pensa que é, um membro do Politburo?" perguntavam as pessoas, segundo Gorbachev.
Raíssa nunca se ajustou plenamente à vida de mulher de um líder soviético. "Ela nunca se sentia muito à vontade entre as esposas do Kremlin", escreveu Gorbachev.
Mas Raíssa nunca deixou que as outras a impedissem de exercer o papel de primeira conselheira do marido.
Em 1991, quando Gorbachev foi posto em prisão domiciliar durante a tentativa de golpe, sua mulher sofreu o que ela mais tarde descreveria como "crise de hipertensão aguda", parecida com um pequeno derrame cerebral.
Depois, quando Gorbachev já havia perdido seu cargo com o colapso da União Soviética, Raíssa admitiu que a vida de ambos havia ficado "um pouco mais sombria". Em 1996, ela declarou a um jornal russo que havia começado a vender seus vestidos de gala porque já não precisava deles.
Muitas das recentes cartas à Fundação Gorbachef elogiaram o casal pelas mostras de afeto que antes motivavam menosprezo, principalmente seu amor e o devotamento recíproco. "Algum dia, uma grande história épica será escrita sobre Raíssa e Mikhail uma história de amor", escreveu recentemente o jornal Izvestia.
O presidente Yeltsin mandou que um avião governamental trouxesse terça-feira da Alemanha o corpo da senhora Gorbachev, informou a agência de notícias Interfax. A televisão estatal russa noticiou que Raíssa será sepultada no Cemitério Novodevichy, de Moscou o repouso final de muitos russos importantes.
Além do marido, a senhora Gorbachev deixou uma filha adulta, Irina Virganskaya.


