Paris, 12 (AE) - Embora reforçando suas frotas aéreas e seus ataques, os "aliados" exploram a diplomacia. Prova disso é a reunião da Otan hoje em Bruxelas. E, entre as cartas que os diplomatas acreditam possuir há uma essencial: a Rússia. Testemunha disso é a viagem da secretária de Estado norte-americana, Madeleine Albright, a Oslo nesta terça-feira para se encontrar com o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Igor Ivanov.
Trata-se de uma idéia excelente: os russos estão bem situados para reintroduzir a palavra no mutismo absoluto da guerra. Infelizmente, os trunfos de que os russos dispõem numa eventual mediação são medíocres.
A primeira desvantagem dos russos é sua fraqueza: falência econômica, financeira. Exército em frangalhos. Poder em leilão. Máfias. Endividamento gigantesco com o Ocidente. etc...
A estas debilidades estruturais se acrescenta neste momento um grande problema conjuntural. Uma crise virulenta sacode o Kremlin, Boris Yeltsin, os círculos dirigentes e econômicos de Moscou, enfim a Duma, reduzindo grandemente a capacidade de manobra deste país no conflito de Kosovo.
O novo incêndio que assola Moscou foi ateado pelo procurador- geral, Iuri Scuratov. Há quatro anos, este homem era considerado o instrumento dócil do Kremlin. mas, em agosto de 1988, a Rússia experimentou uma dura crise. O poder de Yeltsin vacilou e só foi salvo graças à nomeação de Yevgny Primakov para o cargo de primeiro- ministro.
Primakov, ex-membro dos serviços secretos da URSS e diplomata inteligente, é um dos homens mais competentes da Rússia, mas tem uma característica: foi nomeado para seu elevado posto sob pressão dos comunistas da Duma (Parlamento).
Desta forma, a promoção de Primakov sinalizou um novo enfraquecimento de Yeltsin diante de sua oposição (especialmente comunista). O procurador Scuratov logo entendeu assim. Este homem, na véspera tão dócil em relação ao Kremlin, lançou-se brutalmente a estrepitosas investigações, extremamente perigosas para o presidente Yeltsin.
As investigações são variadas, mas a mais nauseabunda refere-se a uma empresa de construção suíça, a Mabetex, que supostamente fez generosas gratificações a altíssimos funcionários do governo, muito próximos do Kremlin, ou seja a pessoas ligadas a Yeltsin e a sua família.
A ação de Scuratov parecia anunciar que havia sido iniciada uma severa operação "anticorrupção" e que o presidente Yeltsin não seria poupado. Mas o presidente partiu violentamente para o contra-ataque. No dia 2 de fevereiro, Scuratov foi "demitido" por Yeltsin. O grupo favorável a Scuratov reagiu: o Conselho da Federação Russa recusou- se a homologar a demissão de Scuratov.
Mas, na noite seguinte, a televisão mostrou um homem se rebolando em companhia de duas mulheres inteiramente nuas. E este homem era parecido com o procurador. Quinze dias depois, o Kremlin explicou que o procurador havia faltado "à moralidade" e que Yeltsin o havia "suspenso" pela segunda vez.
Será que, desta vez, o procurador irá obedecer a Yeltsin e abandonar seu posto e, consequentemente, as investigações sobre os escândalos, como por exemplo o da Mabetex? É difícil prever. Será que Primakov , o astucioso primeiro-ministro ligado aos comunistas, irá continuar a ofensiva, manter o procurador-geral e precipitar assim o processo de impeachment iniciado pela Duma contra Yeltsin? Era esta a opinião corrente, mas, desde hoje, Primakov assumiu uma atitude reservada, extremamente reservada.
Garantiu que deseja a permanência de Yeltsin no poder até o final de seu mandato. Entretanto, o próprio Primakov não nutre nenhuma ambição presidencial.
Tendo em vista esta "briga de foice" nos silenciosos bastidores do Kremlin, podemos compreender que é incerta a possibilidade de uma ação sólida da Rússia em relação à Sérvia. Certamente, de quando em quando, Yeltsin faz uma declaração terrível (bombas nucleares russas apontadas para a Otan) , para, logo depois, desmentir o que disse.
Em outras ocasiões , os russos estudam a possibilidade de acolher a Sérvia de Milosevic numa "União política" que já une a Rússia à Bielo-Rússia. Mas, segundo a opinião corrente no Ocidente, todas estas declarações são mais intempestivas do que inquietantes. É preciso pois esperar o encontro de Madeleine Albright com o ministro das Relações Exteriores da Rússia em Oslo. Talvez ela conseguirá ver mais claro nesse denso nevoeiro russo.

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