Moscou, 25 (AE-AP) - A Rússia está rechaçando as cada vez maiores críticas internacionais a sua ofensiva militar na Chechênia e ao crescente número de vítimas civis com uma única palavra: Kosovo.
Depois de condenar duramente os argumentos apresentados pela Otan para levar sua campanha militar na Iugoslávia, Moscou está agora usando Kosovo para rejeitar críticas contra sua própria ação. A ofensiva de Moscou é vista por muitos russos como uma revanche contra os chechenos e o Ocidente.
Os pedidos ocidentais pelo fim dos combates na Chechênia estão fazendo com que a guerra se torne mais popular entre os russos, que se opuseram à campanha da Otan e agora acusam o Ocidente de flagrante hipocrisia, disseram analistas.
"Para os russos, o Ocidente perdeu sua superioridade moral depois do bombardeio da Iugoslávia", disse Alexander Pikayev, um analista militar do escritório de Moscou da Carnegie Foundation. "Qualquer coisa que o Ocidente diga, os russos comuns irão imediatamente acusá-lo de hipocrisia e de usarem dois pesos e duas medidas".
Preocupados com o crescente número de vítimas civis, incluindo as 150 pessoas mortas num ataque contra a capital chechena de Grozny em 21 de outubro, os Estados Unidos e outras nações ocidentais têm pedido pela suspensão dos combates. O Ocidente teme a repetição da Guerra da Chechênia de 1994 a 1996, na qual cerca de 100 mil pessoas foram mortas - a maioria civil.
A secretária de Estado dos EUA, Madeleine Albright, classificou os ataques russos de "deploráveis e sinistros". A União Européia tem exigido que a Rússia ponha fim aos combates e dê início a conversações de paz.
Longe de recuarem ou ficar na defensiva, líderes russos têm dito que vão manter a pressão contra a Chechênia. Moscou alega que enviou suas forças para a região separatista a fim de eliminar militantes islâmicos acusados de uma série de ataques terroristas na Rússia, incluindo várias explosões em prédios residenciais que mataram cerca de 300 pessoas.
Gennady Seleznyov, o presidente da Câmara baixa do Parlamento, resumiu o pensamento de Moscou ao dizer que nem os Estados Unidos nem qualquer outro país da Otan tem "o direito moral de falar aos russos como resolver o sério problema" depois do bombardeio da Iugoslávia por conta da crise de Kosovo.
O ministro do Exterior Igor Ivanov afirmou que a Rússia se reserva o direito de agir livremente porque a Chechênia é parte da Rússia. Na verdade, acrescentou Ivanov, o Ocidente deveria estar ajudando Moscou.
"As medidas (militares) visam exclusivamente livrar a Chechênia de sua praga terrorista... E estamos certos de que podemos eliminá-la, e esperamos poder contar com o apoio internacional".
Comandantes russos dizem que estudaram a campanha da Otan contra a Iugoslávia antes de enviar suas tropas para a Chechênia. Como a aliança, os militares russos têm se apoiado no poder aéreo para limitar suas perdas - e têm concedido entrevistas coletivas do estilo da Otan, com vídeos mostrando bombas explodindo alvos chechenos.
Aviões da Otan bombardearam por engano alvos civis durante a campanha de Kovoso, e oficiais da aliança admitiram erros. Os russos insistem que atacam apenas alvos militares e rechaçam acusações de estarem provocando vítimas civis.
Observadores independentes na Chechênia têm informado sobre grande número de baixas civis, e o governo da Chechênia denuncia que cerca de 2 mil civis já foram mortos desde setembro.
Enquanto os erros da Otan em Kosovo provocaram forte preocupação pública no Ocidente, os enganos da Rússia na Chechênia têm causado pouco reação adversa na Rússia. Muitos russos, refletindo animosidades étnicas de uma geração, não gostam dos chechenos e a guerra tem forte apoio popular.
"A opinião pública russa não irá mudar porque a grande maioria da população deseja resolver o problema da Chechênia de uma vez por todas", opinou Sergei Markov, diretor do Instituto de Estudos Políticos.
Mais do que protestar, o Ocidente pode fazer muito pouco, além de cortar ajuda financeira para Moscou. Mas a maior parte da ajuda ocidental é usada para evitar que a Rússia declare moratória de seus empréstimos estrangeiros, e cortar novos empréstimos iria ferir o Ocidente, segundo analistas.
O Ocidente quer evitar um grande confronto com o governo do presidente Boris Yeltsin. Apesar de ter pouco entusiasmo com a administração perseguida por escândalos de corrupção de Yeltsin, o Ocidente não quer ajudar os comunistas e nacionalistas que estão ansiosos para reverter as reformas democráticas da Rússia.

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