Rússia prefere falar do que agir contra a Otan
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quarta-feira, 24 de março de 1999
Por Timothy Heritage 
Moscou, 25 (AE-REUTERS) - Enquanto o presidente Boris Yeltsin esbravejava hoje (25) contra os ataques aéreos da Otan na Iugoslávia, seu primeiro-ministro confirmava tranquilamente que o chefe do Fundo Monetário Internacional irá em breve visitar Moscou.
Essas contrastantes atitudes - uma atacando o Ocidente, a outra buscando empréstimos ocidentais - sublinham um dilema que enfrentam líderes russos no momento em que consideram como responder aos ataques aéreos que têm humilhado Moscou no cenário internacional.
Caso não responda resolutamente, o Kremlin ficará exposto a críticas de nacionalistas e comunistas. Mas caso aja com muita dureza, ele colocará em risco relações com o Ocidente e poderia reduzir as chances da Rússia de garantir empréstimos extremamente necessários do FMI.
Enquanto um líder russo após o outro recuava da defesa de "medidas extremas" em resposta à Otan, analistas independentes diziam que Moscou irá manter sua retórica anti-Otan mas não arriscará um confronto aberto com o Ocidente.
"A Rússia pode fazer uma série de gestos simbólicos, como fez suspendendo laços com a Otan, mas o principal é evitar uma confrontação com todo o mundo ocidental", afirmou o analista político igor Bunin.
"Isto significaria o isolamento da Rússia e a colocaria numa situação muito difícil", disse Bunin, presidente do think-tank Centro de Tecnologias Políticas.
Ele afirmou que a melhor opção para Moscou, dada a fraqueza econômica e o diminuído papel no cenário mundial, seria caracterizar os ataques aéreos como um grave erro político e moral, mas mantendo as relações com o Ocidente nos trilhos.
Líderes russos deram sinais de estarem assumindo esta opção hoje. Apesar de continuarem a criticar duramente a Otan, e particularmente os Estados Unidos, eles assinalaram que não acompanharão as palavras com ações duras.
Yeltsin disse que tinha em reserva "medidas extremas" depois de congelar os laços com a Otan, mas que havia decidido não usá-las.
"Estamos acima disso", afirmou ele. "Moralmente, somos superiores aos americanos".
Primakov disse que a Rússia não iria deixar-se isolar economicamente por causa da crise e o ministro do Exterior Igor Ivanov afirmou que Moscou não iria usar a força contra a força. O ministro do Exterior Sergei Stepashin disse que a Rússia não devia reagir exageradamente.
"Devemos dizer que não, não participaremos de ataques da Otan, não os aprovamos, mas nos mantemos abertos para discussão", afirmou o ex-ministro do Exterior Andrei Kozyrev.
Ele pediu para que fosse abrandada a retórica, dizendo que seria deselegante a Rússia chamar seus parceiros ocidentais de agressores e então voltar para eles em busca de ajuda financeira.
Num sinal de que o Ocidente também está determinado a manter a Rússia no barco, o presidente dos EUA, Bill Clinton, e o francês, Jacques Chirac, telefonaram na quarta-feira para Yeltsin a fim de discutir a crise.
Num outro sinal da preocupação ocidental, Primakov afirmou que o diretor-gerente do FMI, Michel Camdessus, iria desembarcar no sábado em Moscou numa visita apressadamente arranjada.
Primakov tinha programado encontrar-se com Camdessus e Clinton esta semana em Washington, mas na terça-feira ele fez seu avião voltar para Moscou do meio da viagem quando ficou sabendo que os ataques aéreos eram iminentes.
Apesar de líderes ocidentais terem posições contraditórias sobre Yeltsin e Primakov, o Ocidente no geral acredita que pode confiar neles, e percebe que a saída deles seria acompanhada por perigos e incertezas.
Apesar de as políticas econômicas de Primakov serem mais cautelosas do que o Ocidente gostaria, ele tem conseguido uma certa preciosa estabilidade política desde que assumiu o governo em setembro.
Os créditos do FMI poderiam ser vital para a sobrevivência política de Primakov, especialmente se Yeltsin considerar que o premier tornou-se demasiadamente influente.
"Tinha ficado óbvio que se Primakov retornasse de Washington com as mãos vazias, sem os créditos do FMI ou mesmo promessas firmes, Boris Yeltsin iria rapidamente demiti-lo", comentou o jornal financeiro Kommersant.
Alguns analistas dizem que o Ocidente pode ficar tão ansioso por apaziguar a Rússia em vista dos ataques aéreos que poderia ficar mais disposto a oferecer créditos.
"Nós podemos conseguir ainda mais dinheiro agora", afirmou Sergei Karaganov, chefe do Conselho para Política Externa e de Defesa.


