Rússia pede aos dois lados que parem com hostilidades
Belgrado, 19 (AE-AP) - O enviado especial russo deixou a Iugoslávia na noite desta quarta-feira (19) depois de cerca de oito horas de reunião com o presidente iugoslavo Slobodan Milosevic, encerrada sem nenhuma solução aparente na mais recente tentativa de acabar com a crise em Kosovo.
Antes de deixar o aeroporto de Belgrado rumo a Moscou, Chernomyrdin disse a jornalistas russos que era "muito importante voltar a Belgrado para a mesa de negociações".
Ele disse que qualquer plano de paz deve ser baseado em um plano divulgado há duas semanas pelo Grupo dos Oito, composto pelos sete países mais industrializados do mundo e a Rússia.
Mais de sete horas após a chegada de Chernomyrdin, a agência de notícias oficial Tanjug não fazia referências à reunião. A televisão sérvia, também estatal, mostrou a chegada de Chernomyrdin, mas não forneceu detalhes sobre o diálogo.
Antes, aviões da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) bombardearam hoje a Iugoslávia, matando seis pessoas, incluindo dois detentos em uma prisão de Kosovo, informou a imprensa estatal. O enviado especial russo pediu aos dois lados que parem com as hostilidades.
Os Estados Unidos relataram uma indisposição crescente em Kosovo, dizendo ter recebido informações da deserção de mais de 500 soldados sérvios e de manifestações contra a guerra em diversas cidades sérvias.
As sirenes soavam anunciando novos ataques aéreos da aviação da Otan enquanto Chernomyrdin ainda estava na cidade. Antes da reunião, Chernomyrdin disse a jornalistas em Belgrado que "a coisa mais importante agora é que os bombardeios contra a Iugoslávia sejam interrompidos e que haja uma pausa nas operações militares".
"Chamem isto do que vocês quiserem, mas é mais importante parar de matar pessoas", acrescentou ele.
Hoje, o porta-voz da chancelaria iugoslava Nebojsa Vujovic adiantara a posição de Milosevic: "O presidente aceita debater o acordo proposto pelo G-8, apesar de rejeitar alguns itens dele."
Num aparente sinal de que o governo pretende aceitar o plano, a Tanjug e emissoras de rádio e televisão estatais deram amplo destaque a comunicado do Movimento Sérvio de Renovação (partido do ex-vice-primeiro ministro demitido Vuk Draskovic). "O G-8 oferece a possibilidade de acabar com esta terrível agressão contra a Iugoslávia. Não há, portanto, nenhuma razão para não aceitar", destaca o documento.
A Tanjug e as emissoras locais divulgaram manifestação de ultranacionalistas sérvios que apedrejaram a sede do Partido Democrático no centro de Belgrado, acusando seus líderes de traição. Mas não fizeram nenhuma menção aos primeiros protestos contra a guerra, ocorridos em Krusevac, cidade localizada 180 quilômetros ao sul da capital.
Ali cerca de 3 mil pessoas lançaram pedras contra o prédio da prefeitura - o prefeito Miloje Mihaijlovic é membro do Partido Socialista, de Milosevic. Os manifestantes pediam o regresso de jovens reservistas da cidade, enviados pelo Exécito a Kosovo. Concentração semelhante ocorreu em Aleksandrovac, 200 quilômetros ao sul. Participaram 2.000 pessoas e a prefeita socialista Zivota Cvetkovic chegou a ser agredida.
Chernomyrdin deixou Belgrado dirigindo-se a Moscou onde deverá relatar o que ficou decidido com Milosevic ao subsecretário de Estado norte-americano Strobe Talbott e ao presidente finlandês Martti Ahtisaari.
O negociador russo reuniu-se com eles ontem em Helsinque, sem divulgar resultados para a imprensa. Durante esse encontro - definido como "produtivo" pelo presidente finlandês -, Chernomyrdin e Talbott tentaram conciliar interesses, mas, aparentemente, não chegaram a um consenso sobre a composição e o comando das tropas internacionais que desembarcarão em Kosovo após a assinatura de um acordo.
Os Estados Unidos não abrem mão do comando. A Rússia exige que ele seja exercido pela Organização das Nações Unidas (ONU). "Não há diferenças fundamentais entre Washington e Moscou", assegurou, no entanto, Talbott ao fim do encontro que durou nove horas.
Talbott esteve hoje em Bonn, onde acompanhou os trabalhos de representantes do G-8, que tentam transformar o plano de paz em resolução - para ser submetida ao Conselho de Segurança da ONU. Rússia e China já condicionaram a aprovação dessa resolução à prévia suspensão dos bombardeios pela Otan.
O porta-voz da Otan, Jamie Shea, reafirmou a decisão da aliança de manter a campanha aérea. E o chanceler alemão tentou pôr ponto final na questão da invasão de Kosovo, defendida pela Grã-Bretanha.
"O governo e a oposição alemã são contra essa iniciativa", disse ele dando a entender que veterá a iniciativa se ela vier a ser apresentada. Itália e França também se opõem. Contudo, o chanceler britânico, Robin Cook, tentará vender a idéia ao presidente Bill Clinton amanhã, em Washington.





