Moscou, 19 (AE-AP) - O presidente Boris Yeltsin advertiu hoje (19) que a Rússia não permitirá que o Ocidente tome o controle da Iugoslávia (formada pela Sérvia e Montenegro). Mas também fez gestos conciliatórios em relação à Otan, afirmando que não mandará mais navios de guerra ao Mediterrâneo e dizendo ao presidente americano, Bill Clinton, que não intervirá militarmente no conflito em Kosovo.
Antes do telefonema, a TV russa transmitiu uma dura declaração de Yeltsin sobre a crise. "Bill Clinton espera vencer. Ele espera que Slobodan Milosevic (o presidente iugoslavo) capitule e entregue toda a Iugoslávia, espera torná-la um protetorado americano. Não vamos permitir isso. Os Bálcãs são um lugar estratégico."
Funcionários ocidentais têm sugerido que os aliados podem tentar fazer da província sérvia de Kosovo um protetorado, a não ser que Milosevic retire suas tropas da região e aceite um plano internacional de paz.
Yeltsin, por outro lado, prometeu que o pequeno navio de reconhecimento Liman, enviado pela Rússia ao Mediterrâneo dias atrás, não será seguido por nenhum outro. E manifestou a disposição russa de mediar uma saída pacífica para o conflito (para discutir essa possibilidade, o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, visitará Moscou no dia 29, a convite do Kremlin).
Esse tom mais moderado de Yeltsin parece ter prevalecido na conversa por telefone de 50 minutos com Clinton. Segundo um comunicado do Kremlin, o líder russo pediu "que seja suspensa o mais rápido possível a ação militar contra a Iugoslávia soberana".
O presidente russo insistiu no retorno à mesa de negociações para que seja preparado "um acordo político que garanta ampla autonomia a Kosovo sob a soberania e integridade territorial da Iugoslávia".
Após o telefonema, um porta-voz da Casa Branca - que pediu hoje ao Congresso a aprovação de uma verba extra de US$ 6 bilhões para os ataques à Iugoslávia - informou que os dois líderes "continuam discordando sobre a campanha da Otan e o envio de uma força internacional liderada pela Otan para pôr em prática um acordo de paz" em Kosovo. Mas destacou: "O presidente Yeltsin mencionou sua decisão de hoje de não enviar mais navios à região e reafirmou que não permitirá que a Rússia seja atraída para esse conflito."
Enquanto bombardeava alvos iugoslavos - incluindo vários depósitos de combustível - pelo 27.º dia seguido, a Otan tentava hoje explicar seu ataque da semana passada contra um comboio de refugiados de etnia albanesa em Kosovo - ação que, segundo a mídia sérvia, matou 80 civis.
Depois de cinco dias de investigação, a aliança admitiu oficialmente, pela primeira vez, que realmente podem ter morrido civis.
Segundo o brigadeiro americano Dan Leaf, naquele fatídico dia a aviação da Otan lançou nove bombas de 225 quilos, guiadas por laser, contra dois alvos em Kosovo. "É possível que tenham existido vítimas civis nos dois lugares."
Primeiro, a noroeste da cidade de Djakovica, os pilotos da aliança atacaram um veículo que acreditaram ter ligação com o incêndio de casas de albaneses étnicos na área. "Foi a associação do veículo com os incêndios que fez dele um alvo legítimo", disse Leaf.
O segundo alvo, a sudeste de Djakovica, foi um comboio que os pilotos acreditaram ser liderado por 20 veículos militares. Embora tenha havido discussão sobre se o comboio (com cem veículos no total) era um alvo militar, os pilotos foram informados por um avião de controle e comando de alta atitude de que ele incluía carros militares.
A decisão de atacar foi baseada no fato de que os pilotos acreditaram que os 20 veículos dianteiros eram "uniformes na forma e na cor", tinham distâncias semelhantes uns dos outros e moviam-se numa velocidade que sugeria movimento militar, ressaltou o brigadeiro.
Leaf acrescentou que o ataque foi suspenso quando se assinalou que as forças sérvias geralmente não andam em comboios tão grandes. Depois, um avião voou sobre o local para examiná-lo melhor e seu piloto concluiu que, embora houvesse carros militares, podem ter existido vítimas civis.

mockup