Grozny, 01 (AE-AP) - O Exército russo anunciou hoje (01) que suas forças irão estabelecer um zona de segurança na separatista Chechênia e o governo de Moscou afirmou que não mais reconhece o democraticamente eleito parlamento checheno.
Aviões de combate russos continuaram hoje a bombardear alvos em toda a Chechênia. Os ataques já fizeram com que mais de 80 mil civis chechenos fugissem atemorizados para regiões vizinhas, que têm pouca capacidade para abrigá-los.
Num sinal de que Moscou está buscando aliados chechenos para possivelmente restabelecer sua autoridade, o primeiro-ministro Vladimir Putin disse que o parlamento checheno eleito em 1997 não era um órgão legítimo. Moscou só irá reconhecer um parlamento anterior, que era amplamente pró-russo, afirmou ele.
A declaração sublinha a posição cada vez mais dura da Rússia, ensombrecendo perspectivas de conversações para evitar que o conflito amplie-se para uma guerra total como a luta de 1994 a 1996 que devastou a Chechênia e humilhou a Rússia.
A situação militar ao longo da fronteira com a Chechênia permanece obscura. Tropas russas assumiram posições em estratégicas colinas vários quilômetros dentro da Chechênia no início desta semana, mas não está claro se o avanço foi uma ação limitada ou precursora de uma invasão total.
O ministro da Defesa russo, Igor Sergeyev, disse hoje que suas tropas irão criar uma "zona de segurança" na Chechênia, mas não entrou em detalhes, divulgou a agência de notícias Itar-Tass.
"A amplitude da zona que irá garantir a segurança será definida para cada seção particular", teria dito ele.
O ministro da Guerra checheno, Magomed Khambiyev, afirmou hoje que não houve confrontos com as tropas terrestres russas e que as forças da Chechênia só combaterão se receberem ordens diretas do presidente Aslan Maskhadov, segundo a Itar-Tass.
O anúncio de Putin dando conta que a Rússia não irá reconhecer o parlamento veio em meio a notícias de que Moscou quer restaurar o governo checheno pró-russo que foi expulso em 1996 junto com as forças russas. O antigo parlamento era tomado pela corrupção e profundamente impopular por sua posição pró-Rússia.
Mas a Chechênia está dividida por rivalidades de clãs e a iniciativa de Moscou poderia atrair aliados da região. Ao mesmo tempo, o tiro poderia sair pela culatra e ajudar a unir uma maioria de chechenos contra Moscou e seus aliados locais.
Não ficou claro se a declaração de Putin também se aplicava ao governo de Maskhadov. O presidente e o parlamento foram eleitos em 1997 numa votação que foi reconhecida como livre e justa por grupos de observadores internacionais.
O governo de Maskhadov é fraco e incapaz de controlar senhores da guerra locais que lançaram ataques contra territórios russos. Os senhores da guerra também têm ameaçado depor Maskhadov, que é a favor de um acordo político com Moscou.
Depois do anúncio de Putin, o presidente do antigo parlamento, Ali Alavdinov, disse que seus membros iriam estabelecer um governo no exílio.
O presidente da Ingushétia, Ruslan Aushev, afirmou que a declaração de Putin iria apenas piorar a situação. "A autoridade legítima na Chechênia hoje é o presidente Maskhadov, gostem disto ou não", afirmou ele, segundo a Interfax. Ele acrescentou que a iniciativa de Putin era "completamente impensada".
Mais de 88 mil refugiados já fugiram da Chechênia desde o início dos bombardeios, pressionando os recursos das regiões vizinhas, empobrecidas, da Rússia. Vários acampamentos foram levantados, mas ainda são bem menos do que o necessário, disseram funcionários humanitários.
Uma campanha terrestre de ampla escala iria provavelmente fazer dobrar o número de refugiados, segundo o chefe do Serviço de Migração russo, Vladimir Kalamanov.
Enquanto isto, a Rússia continuou com seus ataques aéreos contra a Chechênia. A Interfax divulgou que bombardeios foram lançados em toda a república separatista, atingindo instalações petrolíferas que são a base da economia chechena e destruindo uma ponte na principal rodovia a leste da capital Grozny.
A Força Aérea anunciou que promoveu mais de 350 ataques contra a Chechênia nas últimas duas semanas.
O Azerbaijão, uma antiga república soviética hoje independente
denunciou que aviões russos bombardearam uma de suas vilas nesta sexta-feira, mas a Rússia negou a acusação.
Moscou deu início à campanha de bombardeios contra a Chechênia depois que militantes muçulmanos baseados na república invadiram o vizinho Daguestão, buscando criar um Estado islâmico no sul da Rússia. Os militantes também têm sido acusados de uma série de atentados a bomba na Rússia no mês passado que matou cerca de 300 pessoas.

mockup