Paris, 21 (AE) - Há oito dias, Boris Yeltsin estava no poço. Hoje, pode pavonear-se. Driblou o partido Comunista, causou aflição à Duma (Parlamento), eliminou seu rival (o ex-primeiro-ministro Primakov), impôs um de seus adeptos à ponta do governo (Sergei Stepashin) e reintroduziu no cenário alguns de seus aliados suspeitos, tal como Boris Berezovski.
Yeltsin é como o fênix, esse pássaro mítico que sempre renasce de suas cinzas. Yeltsin renasceu mais uma vez. A que preço? graças a quais contorsões?
Um único exemplo: Yeltsin queria eliminar seu brilhante, excessivamente brilhante primeiro-ministro Primakov. Pelo que o demitiu. E agora: quem nomear para substituí-lo? A Duma, que odeia Yeltsin e que é dominada pelos comunistas, está tão irritada com o velho Kremlin, que tratará logo de rejeitar o candidato por ele proposto.
E então, o que faz Yeltsin? Um cálculo tortuoso: propõe à Duma um personagem transparente e medíocre, Sergei Stepashin, certo de que a Duma o rejeitará sem mais nem menos. Após o que proporia seu verdadeiro candidato, Nikolai Axionenko, seu protegido graças precisamente ao fato de ser amigo de um homem de negócios caro a Yeltsin, Berezovski.
Uma jogada hábil: lançar primeiro Stepashin para ser derrubado pelo tiroteio da Duma, para poder introduzir em seu lugar o verdadeiro candidato, Axionenko. (Todos os russos são excelentes jogadores de xadrês).
Infelizmente a Duma, que também joga xadrês, entendeu o plano de Yeltsin, pelo que prefere aprovar o nome do falso candidato Stepashin, na intenção de barrar no poder aqueles a quem os deputados consideram o perigo verdadeiro, Axionenko. E é assim, em consequência de um artifício sutil (já destruído em sua própria execução), que Stepashin se torna primeiro-ministro.
Um exemplo que demonstra que a Rússia continua sendo o império da mentira, tal como nos tempos do comunismo. Todas as cartas estão marcadas. Fala-se a verdade para que o mal possa triunfar. Designa-se um para que o outro seja eleito, etc.
Outro exemplo dessa mentira crônica generalizada, institucional: no início da semana, José Maria Aznar, chefe do governo espanhol, chegou a Moscou. Sua intenção era bater um papo sobre Kosovo, trocar um aperto de mão com Yeltsin e publicar essa foto histórica na mídia espanhola, a fim de demonstrar que no governo de Aznar a Espanha voltou a ser uma das capitais da diplomacia internacional.
Aznar desembarcou, pois, em Moscou onde lhe falta a oportunidade.
Justamente nesse dia Yeltsin está doente, sua terrível bronquite que vai e que vem, tal como um hamster em sua gaiola, dia sim, dia não.
Aznar ficou bastante aborrecido. Seus conselheiros lhe explicam que estão preocupados com a saúde de Yeltsin. Um deles afirma que parte do cérebro de Boris não está sendo irrigada, sem dúvida a metade que se esqueceu da existência da Espanha!
Na manhã do dia seguinte eis que, apesar de sua enorme bronquite, Yeltsin se encontra em seu escritório no Kremlin, sorridente. E, consequentemente, cabe aos espanhóis e a Aznar rejubilar-se, ao ver que a tão abalada saúde de Yeltsin se encontra novamente em seu zênite. O querido Boris! Por estranho que pareça, a delegação espanhola não ficou muito contente. Por um triz escapou a um vexame!

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