Rússia aplica na Chechênia táticas que a Otan usou em Kosovo
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segunda-feira, 27 de setembro de 1999
Por Sergei Blagov 
Moscou, 28 (AE-IPS) - A Rússia condenou a Otan quando a aliança atlântica bombardeou alvos civis na Iugoslávia, mas Moscou aprendeu a lição e agora faz o mesmo na república da Chechênia para esmagar o movimento separatista islâmico.
O governo aprendeu lições militares, como os ataques aéreos diários para debilitar o inimigo, e de relações públicas. Assim, mostra-se eficaz e profissional e faz com que os erros pareçam parte de sua estratégia.
Os bombardeios na Chechênia têm o objetivo declarado de resistir à ameaça terrorista dos guerrilheiros islâmicos, assim como as incursões aéreas da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) tinham o suposto fim de proteger os albaneses étnicos de Kosovo das atrocidades sérvias.
Na frente política interna, declarações fortes respaldadas por ações contundentes destinadas à aprovação popular pretendem devolver o orgulho a esta empobrecida e humilhada superpotência.
Moscou acusou a Chechênia de dar refúgio a extremistas islâmicos aos quais são atribuídos atentados a bomba contra edifícios residenciais na capital e outras cidades russas que causaram a morte de mais de 300 pessoas.
Os termos "checheno" e terrorismo agora são manejados quase como sinônimos e, portanto, houve pouca oposição ao fato de que a Rússia despejará, por seu lado, o terror sobre a Chechênia.
Na segunda-feira, o comando militar russo encabeçado pelo ministro da Defesa, Igor Sergeyev, anunciou que os ataques aéreos prosseguirão.
Num outro paralelo com a Otan, os generais russos anunciaram inclusive que haverá 50 missões diárias.
Aviões Sukhoi-25 atacam alvos industriais nos subúrbios de Grozny, especialmente as refinarias de petróleo. As instalações petrolíferas, que explodiram em chamas, estão controladas pelos chefes separatistas chechenos, segundo Moscou.
O governo garante que os recursos da venda de petróleo são desviados para financiar os separatistas. Os rebeldes foram acusados de roubar 120.000 toneladas de petróleo cru do oleoduto que liga o Azerbaijão ao Mar Negro.
Os bombardeios também alvejaram a televisão chechena e a rede de telefonia móvel, considerada pelos militares russos como uma máquina de propaganda inimiga e uma rede de comunicações, respectivamente.
O chefe da Força Aérea, Anatoly Kornukov, disse que os bombardeios continuarão até que as bases terroristas tenha sido destruídas. Ele afirmou que os ataques são precisos e que eles respeitam as zonas civis.
Para demostrar sua afirmação, ele mostrou fotografias aéreas, tal como fizeram diariamente os generais da Otan há poucos meses.
O primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, elogiou na segunda-feira a estratégia de bombardeios a longo prazo para destruir "os terroristas e sua infra-estrutura na Chechênia".
Nos últimos dias, Putin tem feito declarações cada vez mais belicistas sobre a eliminação dos militantes chechenos, caindo às vezes no ridículo.
Ele chegou inclusive a dizer que os terroristas chechenos deveriam ser eliminados "até nos banheiros", mas se retratou porque a imprensa o ridicularizou.
Os últimos ataques aéreos forçaram milhares de chechenos a fugir para regiões vizinhas, especialmente a Ingushetia. Na segunda-feira, o número de refugiados que escaparam da Chechênia subiu para 50.000, segundo o Serviço Federal Russo de Migrações.
As autoridades da Ingushetia advertiram que enfrentam "um desastre humanitário" e pediram ajuda urgente ao Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur).
"Estamos prontos para enfrentar qualquer acontecimento dentro ou fora da Chechênia", declarou à IPS Vladimir Kalamanov, diretor do Serviço de Migrações Russo, referindo-se à guerra separatista de 1994-1996 quando milhares de pessoas fugiram do conflito.
Os guardas fronteiriços russos tentam formar um "cordão sanitário" entre a Chechênia e o resto da Rússia, afirmou o chefe do Serviço Federal de Guardas Fronteiriços, Constantin Totsky, depois de uma reunião com o presidente russo, Boris Yeltsin.
Segundo Totsky, Yeltsin ordenou que ele detenha a "infiltração terrorista desde alguns países estrangeiros".
O presidente checheno, Aslan Maskhadov, a quem Moscou acusa de ter perdido o controle sobre os rebeldes, pediu uma reunião urgente com Yeltsin. Entretanto, o primeiro-ministro Putin disse que o encontro será realizado apenas quando "a oportunidade seja boa para a Rússia".
Putin esclareceu que Moscou não aceitará negociações que permitam que os "terroristas" recuperem o ânimo depois dos ataques aéreos.
O ministro da Defesa Sergeyev reconheceu que os generais lidam com "diversas variantes" para uma ofensiva terrestre. A televisão russa fala de um avanço até a Chechênia de tanques e blindados.
A declaração de Sergeyev sobre a provável invasão terrestre da Chechênia fez lembrar a desastrosa campanha militar de 1994-1996 contra os separatistas, na qual dezenas de milhares de pessoas, sobretudo civis, morreram.
Alguns analistas consideram que os combates poderiam durar mais de 18 meses.
A segunda etapa da ofensiva poderia começar na primavera (boreal) próxima e contemplaria fomentar a guerra civil entre os chechenos ou uma ofensiva terrestre do exército russo.
Parece haver um consenso de que o problema deve ser resolvido por meios violentos, o que é um sinal preocupante para a democracia russa.
Um jornal de Moscou apresentou inclusive um ultimato para a Chechênia. Ou cessam os ataques terroristas na Rússia, ou a república será aniquilada por ataques aéreos, armas bacteriológicas, "gás neurotóxico, napalm, tudo o que antes possuía o poderoso exército soviético".
Há inclusive rumores de que especialistas discutiram seriamente a possibilidade de se usar armas nucleares na Chechênia.
Até o político liberal Grigory Yavlinsky disse na segunda-feira que o governo deve ser firme contra os terroristas. A retórica belicista significa uma mudança em relação à onda de protestos que os bombardeios da Otan na Iugoslávia provocaram na Rússia.
Entretanto, muitos analistas argumentam que as últimas táticas dos militares foram inspiradas nas ações agressivas da Otan.
Pedidos para que a Chechênia seja bombardeada até que se transforme num "parque de estacionamento" fizeram lembrar declarações do general americano Curtis Le May, que prometeu fazer o Vietnã retroceder à idade da pedra com bombas.
Entretanto, os bombardeios podem ser um tiro pela culatra. Depender apenas de ataques aéreos como elemento de dissuasão contra um inimigo bem armado, faz recordar a estratégia frustrada de Washington no Vietnã.
Ainda não se sabe os bombardeios poder oferecer a "solução final" para o problema checheno, ou se os ataques aéreos são apenas o começo de um novo desastre russo na região do Cáucaso.


