Moscou, 25 (AE) - Quando o ex-presidente Boris Yeltsin entregou o Kremlin a seu delfim no ano-novo, o ex-KGB Vladimir Putin, entregou também uma Rússia destroçada.
O próprio Putin reconhece: "Somos um país rico de gente pobre."
Pobre, mas bem-educada: a taxa de alfabetização é de 99%. Os dados, no entanto, são implacáveis: 35% da população vive abaixo do nível de pobreza.
O salário médio é de US$ 60 mensais. O mercado negro é responsável por 22% do PIB. A máfia russa controla 70% dos negócios. Mais de US$ 130 bilhões deixaram a Rússia desde 1992. Putin estima que serão necessários nada menos que US$ 100 bilhões anuais nos próximos 20 anos para modernizar a economia russa.
"Putin de Ferro", "caixa- preta", ou "folha em branco" - algumas da qualificações atribuídas ao presidente em exercício - certamente será eleito amanhã (26) como o novo czar. As últimas pesquisas dão- lhe entre 53% e 57% dos votos, o que elimina a necessidade de um segundo turno.
O exímio judoca, ex-agente da KGB em Dresden, ex-vice-prefeito de São Petersburgo e verdadeiro general do massacre da Chechênia permanece um enigma para 150 milhões de russos.
A maioria dos outros dez candidatos à presidência já admitiu a derrota. O comunista não-reconstruído Guennadi Zyuganov deve chegar em segundo, com cerca de 22%.
O candidato mais interessante é sem dúvida Umar Djabrailov, um jovem empresário muito bem-sucedido.
Seus outdoors, citando seu website, estão espalhados por toda Moscou. Umar, no entanto, tem um handicap mortal: é checheno, "nascido em Grozny, na URSS". Para ele, o Kremlin, hoje, não passa de uma monarquia.
O que está em jogo na eleição de hoje é nada menos que o poder sobre a maior extensão territorial do planeta. As 30 mil armas nucleares da Rússia representam o segundo maior arsenal depois dos Estados Unidos.
Apesar da roubalheira e da corrupção da era Yeltsin, a Rússia pode sofrer uma fuga de capital de US$ 2 bilhões por mês sem ir à bancarrota.
Suas fabulosas reservas de madeira, minérios e energia, a qualidade de sua mão-de-obra e seu progresso científico são superados apenas pelos Estados Unidos.
Tudo isso está mais do que claro na psique russa - para a qual a turbulência desde 1991 é apenas temporária e pode e deve ser superada. No que concerne a Rússia, deve-se sempre lembrar o que Winston Churchill dizia de Josef Stalin: Quando Stalin subiu ao poder em 1924, a Rússia arava a terra. Quando Stalin morreu em 1953, a Rússia construía bombas nucleares.
Deve-se também lembrar que a Rússia não teve Renascimento nem Reforma.
E depois de séculos de analfabetismo e autocracia, culminando com sete décadas de bolchevismo, a Rússia só poderia ser essencialmente muito diversa tanto do Ocidente quanto do Oriente mais avançado.
À parte aqueles dias vertiginosos do fim da União Soviética, em 1991, nunca houve uma real esperança de mais prosperidade para a Rússia. Stalin matou mais gente do que Adolf Hitler - e as pessoas na Rússia aprenderam a lição.
Não existe coesão social na Rússia nem há bem comum em uma terra onde todo mundo era espião ou informante da polícia.
Daí esta compulsão russa em roubar: roubar dinheiro do Fundo Monetário Internacional (FMI), roubar fundos de ajuda alimentar, roubar a riqueza do Estado em "leilões" comprados - e, como dizem os democratas hoje em Moscou, roubar eleições. As pessoas parecem cansadas.
Verdadeiras reformas na Rússia nunca aconteceram e sob o "Putin de Ferro" ou "caixa-preta" não há esperança de que aconteçam. Não poderia haver um contraste mais brutal do que com os Estados Unidos de hoje - explodindo de dinamismo. Russos vivem acostumados a tremendas adversidades e sabem como enfrentá-las.
Mas não aguentam mais sua história sem fim, sem enredo e sem clímax.
Ninguém está prevendo o apocalipse após esta eleição. Os restaurantes, bares e night clubs da nova Moscou estão lotados. As prateleiras das lojas estão cheias.
O horror da guerra da Chechênia está a 1.500 quilômetros ao sul, com imagens e retórica "antiterrorista" na TV rigidamente controlada pelos militares.
A guerra da Chechênia não passou em essência de uma vingança do ex-Exército Vermelho pela derrota de facto na guerra de 1994-96. A meticulosa destruição de Grozny comprova que não deixariam pedra sobre pedra.
A guerra da Chechênia só horroriza o Ocidente. A Rússia, apenas no século 20, passou pela 1ª Guerra, revolução e guerra civil, uma fome artificial que matou 7 milhões de pessoas, expurgos políticos que mataram até 10 milhões de pessoas, a 2ª Guerra - que deixou 27 milhões de mortos -, a guerra do Afeganistão, o colapso do império soviético, e o empobrecimento brutal da nova Rússia. Os séculos anteriores não foram mais benévolos.
Não por acaso é impossível unificar os russos em torno de uma causa. Nada mais ridículo do que o desejo de Washington de influenciar a Rússia, oferecer ajuda e conselhos politicamente corretos.
A Rússia é grande demais para ser controlada do exterior e seu poder de destruição é grande demais para ser controlado por alianças como a Organização para o Tratado do Atlântico Norte (Otan).
Sua economia caótica e underground é praticamente incompreensível e sua política é secreta demais para ser entendida e prevista com segurança.
A prova dos nove: nenhum milionário think tank do Ocidente previu o colapso da União Soviética.
Moscou - na véspera de uma eleição crucial como esta - está trespassada de rumores, como sempre. Rumina o advento de novos punhos de ferro no Kremlin, os precedentes históricos, os resquícios da tragédia no Cáucaso.
Os gângsteres russos jogam fortunas nos cassinos. A juventude dança a noite toda até cair nos night clubs. E a Rússia, como sempre, continua dançando à beira do abismo.