Londres (AE-REUTERS) - Dez anos depois de "Os Versos Satânicos" ter despertado a ira no mundo islâmico e trazido ameaças de morte dos muçulmanos, Salman Rushdie não se arrependeu de ter escrito o livro.
"Estou contente com o livro que escrevi e espero que ele agora possa assumir seu lugar próprio nas prateleiras e seja simplesmente lido e estudado, para que as pessoas possam tirar suas próprias conclusões", disse o escritor, nascido na Índia. Ele reclama: "O livro tem sido discutido em todos os contextos, menos na linguagem da literatura".
O líder revolucionário iraniano aiatolá Ruhollah Khomeini conclamou os muçulmanos a matarem Rushdie por blasfêmia em um édito ou "fatwa", datado do dia 14 de fevereiro de 1989, logo depois do livro ter sido publicado. A publicação de "Os Versos Satânicos" e a fatwa de Khomeini geraram protestos e conflitos por parte dos muçulmanos no Paquistão, na Índia e na Turquia, que acreditam que Rushdie insultou uma figura sagrada.
Durante esta década, o tradutor japonês do livro foi morto e seu editor norueguês e um tradutor italiano foram seriamente feridos em ataques separados. Os editores da Penguin receberam 5 mil cartas abusivas ou ameaçadoras no ano seguinte à fatwa e 25 ameaças de bomba. Rushdie foi forçado a se esconder, vivendo sob proteção da polícia 24 horas por dia e se mudando constantemente de casa em casa acompanhado por guardas armados. "Tentei viver sem medo. O medo te paralisa. Tentei seguir com minha vida", disse Rushdie.
Apesar do Irã ter se distanciado da fatwa no ano passado, alguns iranianos ainda querem a vida de Rushdie. Uma fundação iraniana colocou US$ 2,8 milhões de recompensa pela cabeça de Rushdie. "A realidade é que nada mudou", disse um oficial de polícia do Serviço Especial da Grã-Bretanha depois do Irã ter oficialmente relaxado a ameaça. "Rushdie ainda está sendo protegido como antes, dado o grau de perigo, isto é certo".
Depois de tantos anos se escondendo, Rushdie perdeu sua reputação de arrogante. Tablóides atacaram Rushdie, reclamando que a segurança - provida pela primeira-ministra Margaret Thatcher, que ele exaltou no livro - estava custando aos contribuintes britânicos um milhão de libras (US$ 1,6 milhão) por ano. Com o passar dos anos, ele gradualmente emergiu de seu mundo escondido, aparecendo em eventos literários e até mesmo em estréias de teatro. Agora ele até mesmo pode fazer piadas sobre sua década de fuga.
Uma notável figura com sua barba grisalha, Rushdie certa vez gastou 1.200 libras em uma peruca para se disfarçar. "Custou uma fortuna. Mas quando saí do carro blindado em Knightsbridge, as pessoas na rua começaram a rir: Ei, é Rushdie com uma peruca. Me senti como um idiota. Tirei a peruca e nunca mais a usei". Ele até mesmo confessou que um médico iraniano uma vez o ajudou a deixar de fumar. "Pessoalmente não posso deixar de sentir pena daquele médico iraniano. Você pode imaginar a confusão quando ele encontrou um compatriota: O que?!! Quer dizer que você tornou-o melhor". Em uma rara entrevista para marcar o 30º aniversário do prêmio Booker que lançou sua carreira, Rushdie se lembra de como se recusou a bancar sua novela "Crianças da Meia-Noite". "Eu realmente não acho que eles devem permitir a aposta. Já parece o suficiente com uma corrida de cavalos", disse ele se lembrando da crítica da mídia, que festejou seu prêmio em 1981. "Nunca apostei em mim mesmo, mas minha irmã ganhou uma bolada quando eu venci".
Sua vida pessoal certamente tem sido tumultuada. Sua segunda mulher, a escritora americana Marianne Wiggins, o deixou meses depois da fatwa, dizendo que Rushdie era obcecado por ele mesmo e acusando-o de falhar em apoiar outros autores cujas vidas foram ameaçadas por causa de seus trabalhos. Rushdie retrucou: "O próprio heroísmo dela fugiu (como ela) apenas quatro meses depois da fatwa". O novelista desde então casou pela terceira vez com sua namorada dos últimos três anos. A imprensa se absteve de publicar o nome dela depois do pedido dos policiais guardiões de Rushdie.
Rushdie constantemente mudou de esconderijo. "Na cidade, você tem o problema das casas serem muito juntas umas das outras", disse ele. "No campo, o problema é que as pessoas são muito curiosas. Os moradores das vilas sabem tudo o que acontece. Isso torna difícil se esconder e exige uma grande perícia. Posso estar morando do seu lado e você nunca vai saber". Um dia ele irá escrever um livro que contará sobre sua década vivendo perigosamente. Para um autor que se delicia com personagens pitorescos e intrigas multi- facetadas, ele é o primeiro a concordar: "O que aconteceu comigo daria um livro muito rushdiano".

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