Curitiba, 19 (AE) - A questão do acampamento que o Movimento dos Sem-Terra (MST) montou na Praça Nossa Senhora de Salete, em Curitiba, desde 8 de junho, para forçar o assentamento de um número maior de famílias no Paraná, volta a ser discutida no fim da tarde de quarta-feira. O governador Jaime Lerner (PFL) receberá os 15 integrantes da bancada ruralista na Assembléia Legislativa para tratar desse e de outros assuntos envolvendo os sem-terra, como a invasão de dezenas de áreas consideradas produtivas no noroeste do Estado.
"Vamos levar sugestões e tomar pé da realidade e de como resolver o problema dessas áreas produtivas", disse o deputado Plauto Miró Guimarães, que lidera o PFL. Em relação ao acampamento de Curitiba, eles vão sugerir que o Incra e o governo tomem uma providência urgentemente. "Um processo reivindicatório, de pressão, é até normal, mas já faz mais de cem dias, e aí deixa de ser processo reivindicatório, tornando-se praticamente um assentamento na praça", afirmou o deputado.
Os sem-terra acamparam na praça em junho, com o objetivo de pressionar o governo a assentar 9 mil famílias este ano no Estado e para reivindicar recursos para os assentamentos. Desde o início, a promessa era de que só sairiam do local depois que os pedidos fossem atendidos. "Mantemos a decisão", disse um dos coordenadores do acampamento, Luiz Ivano. Mais de 120 dias depois da chegada, os sem-terra melhoraram as condições do acampamento. Hoje, os primitivos barracos já ganharam aspecto de uma imensa casa.
A sujeira inicial foi contornada com a saída da área de terra e a construção sobre a calçada. Durante o dia, quem passa pelo local vê a maioria dos 500 sem-terra sentados em frente às casas, tocando violão, contando histórias e tomando chimarrão. Mas há alguns que já conseguiram iniciar-se em uma nova profissão, como os padeiros.
Dois fornos foram instalados em uma das casas, onde alguns sem-terra trabalham na fabricação de cerca de 140 pães por dia. Um pouco mais da metade vai para o consumo interno e o restante é vendido por R$ 1,50 a unidade. "É muito bom", garante a servidora da Secretaria da Saúde Maria Santos. A venda dos pães garante parte da farinha e o restante é doado por entidades, principalmente religiosas.
O assentado Carlos Alberto Belo, de Tamarana, no norte do Paraná, também decidiu ensinar a técnica da serigrafia, que já dominava. Segundo ele, 12 pessoas aprenderam a pintar camisetas e faixas e poderão levar a experiência para seus locais de origem. Para o sustento dos sem-terra, também foi montada uma grande estufa, onde estão plantadas alface, cebolinha e outras hortaliças.
As famílias que ocupam as casas revezam-se em média a cada 30 dias com outras que vêm das mesmas regiões. Para que as crianças não tenham dificuldades escolares, foi montada uma escola no andar térreo do prédio em construção do Fórum de Curitiba. Ao retornar a seus locais de origem, as crianças levam os comprovantes de que mantiveram o estudo.
Para garantir a saúde dos sem-terra foi montada uma farmácia, com remédios básicos, e a prefeitura mantém continuamente uma ambulância de prontidão para casos mais graves. A higiene também é garantida pela prefeitura que instalou banheiros, chuveiros e tanques para lavar roupa.

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