Ruralistas podem unir-se a sem-terra contra governo
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domingo, 22 de agosto de 1999
Por Flávio Mello 
Brasília, 23 (AE) - A coordenação do movimento dos produtores rurais poderá usar a Marcha dos Cem Mil, protesto organizado pela Central Única dos Trabalhadores (CUT) e pelos partidos de oposição ao presidente Fernando Henrique Cardoso, marcada para quinta-feira (26), como forma de aumentar a pressão contra o governo federal e tentar acelerar uma solução ao impasse em torno da pauta de reivindicações defendedida pelos agricultores.
Os líderes rurais dizem que os motivos do protesto contra o governo federal são completamente diferentes dos defendidos pela CUT e pelos partidos de oposição, mas admitem que as "bases" do movimento poderão aderir à Marcha dos Cem Mil, se não houver nenhum acordo sobre o projeto de lei que prevê a negociação da dívida do setor. Como sabem que o êxito do protesto da oposição não interessa ao governo, a coordenação do movimento dos agricultores acredita que as negociações possam ser aceleradas justamente para evitar que as duas manifestações se unem.
"A nossa posição não é de confronto, mas os dois movimentos poderão se encontrar e, se ficarmos encurralados, consultaremos as bases, que estão insatisfeitas com a política do governo federal", disse hoje o coordenador da Mobilização Acordo Rural - o nome oficial do protesto dos agricultores -, Homero Pereira. "Se algo ocorrer no sentido de os agricultores participarem do protesto de quinta-feira, a culpa será do governo", completou.
Pereira disse que ainda não foi procurado por nenhum representante da CUT, mas admitiu ter fornecido "algumas marmitas" para manifestantes ligado aos partidos de oposição que estavam acampados num terreno ao lado do edifício da Confederação Nacional de Agricultura (CNA). Ele explicou que a divergência com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) refere-se ao direito de propriedade, mas não poderia "negar um prato de comida" por causa disso.
"Não vamos orientar ninguém a engrossar o ato da CUT, mas quem quiser e achar que deve ir, tudo bem", disse o manifestante Claudinei Rigonatto, que também trabalha na organização no movimento. Os líderes do movimento dos produtores rurais disseram que novos reforços deveriam chegar a partir da madrugada de amanhã (24).
São esperadas 10 mil manifestantes, que viriam de todos os Estados. A intenção é juntar cerca de 15 mil manifestantes para pressionar a Câmara a aprovar quarta-feira (25) o projeto que prevê a renegociação das dívidas.
Se a estratégia der resultado, os agricultores começariam a deixar a capital na noite de quarta-feira. O presidente da CUT do Distrito Federal, José Zunga, disse que não vê problema algum em receber o eventual apoio dos produtores rurais.
Zunga argumentou que o protesto é democrático e todos os setores atingidos pela política geral do governo poderão participar.
"Não estamos exingindo atestado ideológico de ninguém"
argumentou o presidente da CUT no Distrito Federal.
"Uma eventual participação dos produtores rurais não significa que nós iremos carregar as bandeiras deles ou eles as nossas", completou.


