Ruralistas infiltram detetives no MST
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 05 de maio de 2003
Luciana Pombo<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Ruralistas paranaenses admitem a formação de um serviço secreto no Estado para investigar e prever todos os passos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Equipes de detetives profissionais tentam identificar futuras invasões se infiltrando no movimento e nos acampamentos à beira da estrada. O serviço funciona mais ativamente no Centro-Oeste, onde vários acampamentos à beira de estrada foram montados nos últimos cinco meses.
Segundo o presidente do Primeiro Comando Ruralista (PCR), Humberto Mano Sá, as estratégias usadas pelos sem-terra são analisadas e repassadas para os agricultores. A principal preocupação é com a região de Laranjal, onde 2,5 mil pessoas estão acampadas na beira da estrada num local chamado de ''Acampamento Che Guevara''. ''Temos informações seguras de que eles estão mobilizados. Eles fazem terrorismo com os ruralistas. Há uma guerra psicológica que temos que coibir'', argumentou.
Entre as informações já repassadas pelo serviço de inteligência contratado pelos ruralistas, Sá afirmou que uma é a que mais preocupa. Os sem-terra estariam programando para breve a divisão do acampamento em cinco grandes grupos que realizariam cinco invasões simultâneas. ''A intenção deles é confundir e dificultar nossa mobilização. Mas estamos preparados'', disse o líder ruralista. Sá admite ainda a formação de grupos de segurança armada para evitar as invasões. ''Os fazendeiros estão mobilizados para preservar o que têm. Temos o direito constitucional de usar armas, se necessário'', enfatizou.
O presidente da União Democrática Ruralista (UDR), Marcos Prochet, negou a contratação de detetives profissionais para obter informações dentro de acampamentos. Mas admitiu que muitos dissidentes do MST repassam informações antecipadas das ações planejadas pelo movimento. ''Sempre temos informantes dentro dos acampamentos e assentamentos. Usamos as mesmas armas que o MST. Os integrantes do MST descontentes nos ajudam'', afirmou ele, comemorando o fato de há três anos não ocorrerem invasões nas regiões Norte e Noroeste.
Prochet nega a formação de milícias no campo para evitar as invasões, mas admite que os fazendeiros estão preparados para defender suas terras. O presidente da Sociedade Rural do Paraná, Edson Neme Ruiz, acredita que a formação de grupos de segurança não é necessária no momento atual brasileiro. Ele acredita na vontade governamental de investir no agronegócio. ''Não existem milícias no Estado. Pode ser que algum fazendeiro isoladamente faça isso. Também não existe a contratação de pessoas para se infiltrar no campo. Se existir, desconheço'', argumentou Neme.
O coordenador estadual da Pastoral da Terra, Darci Frigo, disse que sempre teve informações de que pessoas contratadas por fazendeiros estavam se mobilizando e se fazendo passar por sem-terra. ''A milícia armada não é surpresa. A infiltração de pessoas no movimento, sim. Não conhecemos precedentes neste sentido no Brasil e vamos pedir que o Ministério Público Federal investigue isso'', afirmou.


