WASHINGTON (AE-NEWSWEEK)- Robert Rubin deixará Washington com uma reputação tão elevada que é dificil separar o que ele fez na realidade daquilo que o povo acha que ele fez. Como secretário do Tesouro entre 1995 e 1999, Rubin foi o mais conhecido agente da política econômica do governo Clinton quando a economia norte-americana atingiu o seu mais impressionante desempenho em uma geração e quando o orçamento federal passou decididamente a registrar superávit pela primeira vez desde 1969.
Estes triunfos cercaram Rubin com uma aura de tranquilo taumaturgo, mas, apesar disso, ele teve pouco a ver com tudo isso. No máximo, Rubin foi o homem certo no lugar certo e na hora certa.
Embora Clinton costume atribuir a si o mérito pelo desempenho econômico, Rubin - corretamente - tem sido mais circunspecto. As raízes verdadeiras do resurgimento econômico remontam a princípios da década de 1980, quando o Federal Reserve sufocou uma inflação de dois dígitos com a dura recessão de 1981-82.
A experiência, reforçada pelo suave declínio de 1990-91, foi uma advertência às companhias de que não poderiam mais elevar rotineiramente seus preços para aumentar os lucros. Elas tiveram que cortar os custos e melhorar a eficiência. Embora muitos outros fatores tenham contribuído para o florescimento econômico (tecnologia, melhor gerenciamento), a supressão da inflação devastadora foi o acontecimento crítico. Isso foi o que estabeleceu condições para o aumento dos lucros e dos preços das ações. Frequentemente se diz que os déficits orçamentários federais menores - e agora os superávits- empurraram a economia para a frente. Mas a verdade é exatamente o oposto: a expansão da economia é que ajudou a zerar o déficit orçamentário. A expansão econômica produziu uma enorme e inesperada arrecadação fiscal. Os recolhimentos de impostos são agora pelo menos US$100 bilhões maiores do que se previa ainda em 1996. O outro fator que ajudou a criar superávits orçamentários foi o fim da Guerra Fria.
Como uma parcela da renda nacional, os gastos de defesa cairam cerca de 50% desde 1988. Se isso não tivesse acontecido, os gastos de defesa teriam sido cerca de US$ 250 bilhões mais.
A suposta conexão entre os orçamentos melhores e a expansão econômica são as taxas de juros menores. O problema é que, ajustadas à inflação, as taxas de juros não avançaram muito. Em 1989, a taxa média sobre os bônus do Tesouro, de 30 anos, era de quase 8,5%, enquanto a inflação estava em 4,6%, o que gera uma taxa "real" de 3.9%. Em 1998, a taxa dos bônus era de 5,6% e o índice de inflação era de 1.6%, dando uma taxa "real" de 4%. A explicação é que muitas influências (inflação, demanda de crédito) determinam as taxas de juros - e na verdade ninguém as entende muito bem.
Nada disso significa que Rubin foi somente aura, sem qualquer conquista. Significa que sua verdadeira conquista ainda não está estabelecida. Sua saída constitui inegavelmente uma grande perda para a Casa Branca. Ao contrário de muitos dos principais assessores de Clinton, Rubin teve anteriormente sua vivência e conquistou sucesso fora da política, antes de entrar para o governo. Ele chegou a dirigir a Goldman Sachs, uma das instituições de investimento bancário mais destacadas do mundo. Ele tem conexões com os negócios e as finanças - e possui a compreensão de tudo isso em primeira mão -, coisas raras neste governo. .
Outro ponto igualmente importante é que seu estilo contrasta favoravelmente com o do presidente. Enquanto Clinton é um falador compulsivo, Rubin se comporta como se acreditasse que o respeito e a autoridade derivam dos fatos, não das palavras.
Rubin foi "um dos mais eminentes secretários do Tesouro de todos os tempos", escreveu o principal economista da Merrill Lynch, Bruce Steinberg, depois da renúncia do secretário. Mas Steingberg não ofereceu nenhum outro motivo além de sua "compreensão do mercado" e "orientação para o mercado". O verdadeiro motivo é porque Rubin projeta calma e inspira confiança. Isso parece ser reflexo de uma genuína segurança interna.
Há seis meses, fui convidado a almoçar sozinho com Rubin no Departamento do Tesouro. O que mais me impressionou foi a rapidez com que ele deixa uma pessoa sentir-se à vontade. Ele não fez uma preleção. Fez até perguntas e ouviu minhas respostas. Não fez muita divulgação, mas eu saí de lá entendendo melhor sua eficiência, dentro e fora do governo. Rubin é positivo, sem se dar importância; pode discordar sem antagonizar. E eu entendi melhor porque a imprensa o tratava tão bem. Ele parece dizer menos do que sabe, enquanto, em Washington
quase todos os outros parecem dizer mais. Paradoxalmente, esta moderação intencional em suas declarações é imensamente sedutora para muitos repórteres.
Mas, se a história irá considerá-lo um grande secretário do Tesouro, vai depender principalmente de duas incógnitas. A primeira envolve a política interna da Casa Branca. Talvez os arquivos revelem que Rubin frustrou muitos planos duvidosos, inclusive - talvez - algumas sugestões para pressionar o Federal Reserve. Mas o tempo poderá também revelar algumas falhas no legado de Rubin. Por exemplo, ele não fez nada para resolver o problema orçamentário a longo prazo: reduzindo os custos da aposentadoria da geração do "baby-boom" (período pós-Segunda Guerra Mundial). Na verdade, Rubin endossou um projeto mal-orientado para ocultar esse problema. (por este projeto, o governo reforçaria artificialmente o Seguro Social e os fundos mútuos do Medicare, dando-lhes trilhões de dólares em títulos do Tesouro). A segunda incógnita é o resultado da crise financeira global que começou em meados de 1997. Rubin ajudou a elaborar a resposta e, se a crise recuar, ele será merecedor de grande crédito por isso.
Em fins de 1997, por exemplo, a Coréia do Sul esteve a ponto de declarar o não pagamento de sua dívida externa. Suas reservas em moeda estrangeira diminuiram para cerca de US$4 bilhões. Rubin ajudou a persuadir os bancos a refinanciarem suas dívidas (embora em termos altametne favoráveis), possivelmente afastando desta forma uma crise mais vasta. Mas, de novo, façamos algumas ressalvas. A anterior defesa dos mercados globais abertos por parte de Rubin pode ter inspirado algumas das excessivas retiradas de capital que provocaram a crise. E, em 1995, o socorro norte-americano ao México para resgatá-lo de uma crise financeira pode ter incentivado empréstimos imprudentes para salvar os investidores de incorrerem em perdas.
Não sabemos se qualquer destas coisas classifica Rubin como o maior secretário do Tesouro desde Alexander Hamilton, como o afirmou efusivamente o presidente Clinton. Sua verdadeira realização pode ser mais modesta, embora ainda poderosamente impressionante. Durante seis anos e meio (ele trabalhou primeiramente na Casa Branca), Rubin trouxe competência e integridade pessoais ao governo sem nenhum motivo evidente de ganho financeiro, ambição política ou glória individual.
Ele costumava chamar isso de "serviço público". Em nossa época, isso é cada vez mais raro.

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