Rua 25 de Março completa 140 anos
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sábado, 14 de agosto de 1999
Por Marcus Lopes 
São Paulo, 15 (AE) - A "Pequena Bagdá" está completando 140 anos. Apesar da concorrência dos shopping centers e dos problemas enfrentados na região central, incluindo camelôs e falta de segurança, a Rua 25 de Março ainda é uma das principais referências da cidade de São Paulo no comércio de tecidos e armarinhos.
Em 1859, a Câmara Municipal determinou a abertura de uma rua que ligasse a Ponte do Carmo ao Porto de São Bento, pela margem esquerda do Rio Tamanduateí. Ela passou a chamar-se Rua de Baixo, pois ficava no pé da colina que, na época, abrigava praticamente todo o espaço urbano de São Paulo. O nome seria trocado em 1865, numa homenagem ao dia em que Dom Pedro I outorgou a primeira Constituição brasileira.
A tradição comercial veio com os mascates, em grande parte sírios e libaneses, que se concentravam no pequeno porto que havia às margens do Tamanduateí. No fim do século passado, começaram a surgir as primeiras casas comerciais de tecidos e armarinhos. Logo, a "Pequena Bagdá" - apelido que surgiu por causa da alta concentração de comerciantes sírios, libaneses e armênios - começou a ser procurada por pessoas de todo o Estado e de outras partes do País, que vinham a São Paulo fazer compras
no atacado e no varejo.
Comércio - "A rua sempre teve tradição no comércio atacadista", afirma o empresário Gilberto Afif Sarruf, um dos proprietários da loja Rei do Armarinho. Fundado em 1926 por seu pai, Afif Sarruf, o ponto-de-venda ficou na 25 de Março até o fim da década de 40. Depois, foi transferido para uma das ruas transversais, a Cavalheiro Basílio Jafet. "Como as comunicações com o interior eram difíceis, as fábricas preferiam vender aos lojistas da capital, que se tornaram distribuidores", explica Sarruf.
As inúmeras lojas também serviam de ponto de referência obrigatório para compras de tecidos, armarinhos e enxovais. "Minha mãe não fazia compras no centro sem dar uma passada pela 25 de Março", lembra a historiadora do Departamento do Patrimônio Histórico da Prefeitura (DPH) Maria Aparecida Lomônaco. "Trata-se de uma rua que simboliza muito a miscigenação paulistana."
Segundo a historiadora, a partir do fim do século passado começou a surgir um "bairro sírio", delimitado no triângulo formado pelas Ruas 25 de Março e Cantareira e pela Avenida do Estado. "Nessa área apareceram lojas, igrejas ortodoxas, hotéis, restaurantes sírios e livrarias que vendiam livros em árabe", explica Maria Aparecida.
Por um certo tempo, a região ainda funcionou como área de lazer. Em 1870, o prefeito João Theodoro mandou aterrar parte dos pântanos próximos do Tamanduateí e construiu um pequeno balneário, que ficou conhecido como Ilha dos Amores. "O empreendimento não durou mais do que cinco anos, por causa do frio que fazia na região", ressalta a historiadora.
Restaurantes - As compras não se mantinham como único atrativo da rua. Os paulistanos ainda a frequentavam em busca de seus restaurantes, que destacavam quitutes típicos dos imigrantes, como quibes, esfihas e pão sírio. "Éramos uma referência", diz o comerciante Alberto Narchi, proprietário de uma loja na Rua 25 de Março há mais de 50 anos.
Narchi reclama que, nas últimas décadas, o bairro terminou invadido por coreanos. "Mais de 70% do comércio tradicional não existe mais e muitas lojas foram fechadas porque os filhos não quiseram seguir os passos dos pais no comércio."
A via ainda apresenta dificuldades de acesso, por conta do trânsito pesado e dos camelôs, que ocuparam novamente as calçadas. "Mesmo assim, continuamos aqui", destaca Narchi. Uma das preocupações dos antigos comerciantes está em preservar a memória da "Pequena Bagdá". Na loja Rei do Armarinho, vem sendo montado um memorial da história da 25 de Março e da imigração árabe no Brasil.
"Estamos conseguindo material com pessoas que gostam da história da colônia", revela Gilberto Sarruf. Segundo ele, o memorial deve ficar pronto até o fim do ano e do acervo constarão objetos típicos do comércio da área, como uma caixa registradora e um cofre do início do século.


