RS lança movimento para alfabetizar 200 mil adultos
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quinta-feira, 20 de maio de 1999
Por Ayrton Centeno 
Porto Alegre,21 (AE) - O Rio Grande do Sul lançou ontem (20) à noite um movimento estadual para alfabetizar 200 mil adultos em quatro anos, com base nas propostas do pedagogo Paulo Freire. Serão 600 alfabetizadores em 467 municípios do RS. O objetivo é reduzir o percentual de analfabetos no Estado para 2%.O projeto terá recursos iniciais de R$ 1,5 milhão este ano, provenientes do governo federal e do estadual.
De acordo com a coordenadora da Divisão de Educação de Jovens e Adultos da Secretaria de Educação/RS, Liana Borges, é o maior esforço público estadual no gênero em curso no Brasil. "Se conseguirmos o apoio da Unesco (Fundo das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) , como pretendemos, poderemos dobrar este número", observou.
Calcula-se em 650 mil o número de jovens gaúchos acima de 15 anos e de adultos analfabetos ou que mal sabem ler e escrever. Em 1995, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra Domicílio (PNAD), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o percentual de analfabetos do Estado era de 7,8%. A proposta do Movimento de Alfabetização/RS (Mova/RS) é reduzir este percentual a 2%, já na faixa do chamado analfabetismo residual.
Aulas - Cerca de 600 alfabetizadores darão aulas em salões paroquiais, sindicatos, igrejas e associações comunitárias nos 467 municípios do RS durante o segundo semestre. "Vamos onde as pessoas estiverem", disse a coordenadora.
Os pontos básicos do Mova/RS são três. "O primeiro é entender o analfabetismo como uma dívida e não como uma doença"
esclareceu. "Também não é uma campanha, de cunho assistencialista, com tempo para acabar", continuou. "E inclui a preparação dos alfabetizadores", disse. Todas as semanas os alfabetizadores passarão por formação pedagógica de três horas/aula e participarão de seminários regionais. Em 2000 o total de alfabetizadores subirá para 1.200.
Além da figura do alfabetizador, mais duas farão parte do Mova/RS. Uma é a do animador popular de alfabetização. Serão 467, um para cada município gaúcho. O animador terá a incumbência de divulgar a idéia, através de palestras e reuniões
percorrendo igrejas, universidades, sindicatos, associações de bairro. A terceira será o apoiador pedagógico, encarregado de acompanhar e orientar os alfabetizadores.
O tempo médio da alfabetização é de sete meses. "Mas é o aluno que determinará o seu ritmo", explicou a coordenadora. O Mova/RS é inspirado em movimento de Porto Alegre que, de acordo com Liana, conta com 170 turmas e já reduziu de 5% para 2% os analfabetos adultos do município, seguindo os mesmos critérios. "Foram dadas aulas até em bares e garagens", lembrou. As entidades da sociedade civil conveniadas cederão seu espaço, organizarão as turmas e indicarão o alfabetizador.
O pesquisador de educação de adultos da PUC/SP, Sérgio Haddad -- que fez a conferência de lançamento oficial do Mova/RS na noite de quinta-feira (20) -- comentou que este tipo de iniciativa significa "um primeiro passo" para o enfrentamento do analfabetismo. Haddad apontou a exclusão social como uma das maiores inimigas da diminuição do número de analfabetos no país -- em 1995, esta taxa era de 15,6% da população acima de 15 anos.
Ele lembrou que foi na década brasileira de maior desenvolvimento e de inclusão, de 1950 a 1960, que a taxa caiu sete pontos percentuais. Reparou ainda que a ausência de um programa permanente de educação de adultos, a má distribuição de renda e a queda na qualidade da escola pública são outros fatores que emperram este combate.


