Sucursal de Foz do Iguaçu

Ney de SouzaMão únicaSegundo relatório da Polícia Militar, em 96 foram roubados 427 carros somente em Foz do Iguaçu. Desses, apenas 72 foram recuperados. Nos dois primeiros meses desse ano, 82 carros deixaram a cidade rumo ao ParaguaiA solução para coibir roubo de carros e a travessia de veículos roubados do Brasil para o Paraguai pode estar dentro das delegacias e quartéis da própria polícia da fronteira entre os dois países. Nos últimos dias, vários casos e denúncias apontam na direção de policiais militares e civis supostamente envolvidos no esquema de passagem de carros para o Paraguai.
A cúpula das polícias pegou fogo desde a prisão do agricultor Reni Callegaro na noite do sábado, dia 18. Ele mora em Santa Helena, cidade localizada nas margens do Lago de Itaipu, cerca de 70 quilômetros de Foz.
Callegaro pode ser o fio da meada para quebrar barreiras nas investigações e desvendar quadrilheiros especializados no roubo de carros e na facilitação para passagem de veículos para o Paraguai, apesar de negar qualquer envolvimento.
Callegaro pode provocar rombos na imagem das polícia com seus depoimentos até agora cercados de sigilo. O agricultor foi preso pela Polícia Militar de Santa Helena, mas acabou sendo transferido para a Delegacia da Polícia Federal em Foz do Iguaçu por causa de ameaças de morte.
Callegaro disse a Folha que estava revelando todo o esquema. Porém, sabia da atuação dos policiais, mas não tinha nenhum envolvimento. ‘‘Tinham que achar um culpado porque a coisa estava pegando. Então, acabei sendo esse bode expiatório’’, disse.
Mas essa versão não é confirmada pelo comandante do Grupo Águia de Curitiba, capitão Neves, que alguns dias vinha investigando o caso ao lado dos delegados do Comando de Operações Especiais, Edu da Silva Furtado e Edson Barbosa dos Santos. ‘‘Ele já passou mais de trinta carros roubados para o Paraguai e informou que fez isso com participação e facilitação de policiais’’, garante Neves.
O esquema - Segundo Callegaro, ele foi procurado pelo comandante do Pelotão da Polícia Militar de Santa Helena, tenente Tavares, e pelo agente da Polícia Civil da mesma cidade, identificado epenas como Schimidth. No depoimento a Polícia Federal, ele diz que os policiais informaram que iriam usar uma área da reserva de Itaipu, próximo ao sítio de Callegaro, para fazer trabalhos extras.
Na ocasião, eles recomendaram para que não delatasse o esquema, de acordo com o preso. Cellegaro diz que percebia a movimentação de carros, todos semi-novos, que entravam mata a dentro e, durante à noite, iam para o país vizinho através de barcaças. ‘‘Se você denunciar alguma coisa, nós vamos ficar sabendo e você vai arcar com as consequências’’, teria dito o PM Tavares, segundo Callegaro.
Ele não sabe informar quem fazia essa transação, mas disse que, durante a noite, policiais se movimentavam na região. ‘‘Não sei se eram civis ou militares, mas eles vinham em viaturas e dava para ver o giroflex ligado’’, afirma. Ainda segundo Callegaro, o esquema começou há 45 dias e pelo menos duas ou três vezes por semana eram passados de dois a três carros. ‘‘Nas últimas semanas, eles passaram e ‘‘trabalhar’’ todos os dias’’, diz.
Apesar de terem sido encontrados cinco carros semi-novos no sítio de Callegaro, ele nega as acusações e afirma que tudo foi montado. ‘‘O único crime de Callegaro é a omissão’’, diz o advogado defesa, Luiz Eduardo de Souza.
O agricultor foi preso quando voltava com a família da cidade de Céu Azul. Uma das provas anexadas pelo advogado para a não confirmação do flagrante é um cheque que ele teria emitido em um mercadinho quando voltava para casa.
Na PM, Callegaro denuncia torturas, comprovadas em um exame feito por médicos indicados pelo juiz Claudio Camargo dos Santos, de Santa Helena. A promotora Vera Guiomar Moraes, quis reforçar a tese dos espacamentos e o Instituto Médico Legal (IML) de Cascavel ratificou as lesões.
Ele diz que sofreu descargas elétricas nos testículos e nádegas, inclusive teve o calção rasgado, levou socos e pontapés, além de processo de asfixia com sacos plásticos. ‘‘Ele foi preso às 20 horas de sábado e só foi localizado no domingo depois das 19 horas e ainda estava dentro do batalhão da PM de Santa Helena’’, estranha o advogado de Callegaro.
Os nomes - Callegaro deletatou o esquema e informou nomes que, segundo eles, estavam envolvidos porque chegaram a lhe procurar para pedir silêncio, outros foram citados nas conversas e alguns nomes ele foi obrigado a falar porque estava sendo torturado.
No depoimento, citou os nomes do policiais civis de Toledo, Dionísio Santos; do delegado de Toledo Wilson Urbano; ex-delegado de Santa Helena, Ari Cunha; do escrivão de Matelândia, Ville; os PMs de de Diamanate d’Oeste, Marcos Bandeira e Paraná, além do comandante da PM de Santa Helena, tenente Tavares e o policial civil da mesma cidade, conhecido como Schimidth, além de Arciso Jataí e um homem conhecida como Gaúcho. Segundo ele, o comprador de carros roubados no Paraguai é Osvaldo Figueiredo.
O advogado de Callegaro, temendo sua segurança com liberdade condicional, evitou o pedido de habeas-corpus durante o processo. Para ele, há segurança nas celas da Polícia Federal de Foz do Iguaçu. ‘‘A família já tem um local onde ele pode ficar sem ameaças. Com isso, nós entramos com o pedido para responder em liberdade na próxima semana’’, diz o advogado.
Callegaro tem uma ficha conhecida pela polícia, tornando difícil a crença em suas versões. Segundo policiais, os irmãos Reni e Celso Callegaro estão envolvidos em várias atividades ilegais na fronteira. Celso morreu durante uma troca de tiros com a polícia quando tentava furar um bloqueio realizado na região de Santa Helena.

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