''Eu 'fumei' três motos, um carro, vários móveis da minha casa. Eu descia a favela com móveis nas costas. Tudo no crack. Depois, fui roubar. Eu tenho 17 passagens pela polícia.'' O depoimento de Flávio, 28 anos, que há sete transformou as ruas em seu lar, é um demonstrativo da rotina de grande parte da população de rua: drogas, violência, abandono.
Flávio conta que passou a morar nas ruas em uma cidade do interior de São Paulo. Ele fazia faculdade de Educação Física e mergulhou no crack e no álcool. ''Foi depois que minha mãe morreu. Mas não quero pôr desculpa. Foi 'sem-vergonhice' mesmo'', explica. Ele relata que passou por várias cidades antes de se estabelecer em Londrina. Hoje, Flávio faz parte de um grupo de moradores de rua que está sempre pela Região Central da cidade.
Outra integrante do grupo, Maria, 29 anos, relata que conheceu o crack quando era adolescente. ''No nosso grupo aqui, é tudo pela droga. Estamos tentando sair do crack. Estamos no (programa municipal) Sinal Verde. Eles ajudam a gente, a gente faz aula de pintura, ocupa a cabeça'', diz Maria. No dia em que foi entrevistada pela FOLHA, ela comemorava por estar há 11 dias sem usar crack: ''Cada dia é uma vitória''.
Maria é casada e tem três filhos. ''Deixei minha família por causa das drogas. Mas vou sempre lá (na casa dos familiares). É sempre para o 'básico': pegar uma roupa, comer alguma coisa'', explica.
Como acontece com a maioria dos moradores de rua, o grupo mostra desconfiança quando é abordado. A princípio, não quiseram conversar com a FOLHA. Aceitaram depois, sob a condição de que não fossem identificados na matéria - os nomes utilizados nessa reportagem são pseudônimos. Também não quiseram que o repórter fotográfico da FOLHA fizesse imagens a princípio. Só depois de muita conversa autorizaram o registro.
Apesar do receio, o grupo de moradores de rua disse à reportagem que não tem ''do que reclamar'' da população do Centro de Londrina - nunca foram agredidos.
Eles não trabalham. O dia a dia é perambular pelas ruas, buscar alguma ajuda - além do Sinal Verde, a Pastoral da Rua é uma referência (''sempre trazem um sopão pra gente'', diz Maria) - e fugir do inimigo que os levou às ruas. ''A gente sabe onde o pessoal fuma crack. A gente 'corta' (evita) essas ruas, para não 'dar abstinência''', explica Maria. Como ela própria diz, cada dia sem o crack é uma vitória - e também uma chance de recomeço. (F.G.)

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