Brasília, 03 (AE) - O governador do Distrito Federal, Joaquim Roriz (PMDB), afastou hoje o secretário de Segurança Pública, Paulo Castelo Branco, e três oficiais da Polícia Militar de seus cargos: o coronel Mário Moura dos Santos Filho e os tenentes coronel Mário Vieira de Souza e Paulo César Timothéo, que comandaram, na quinta-feira, a ação da Polícia Militar do Distrito Federal em frente da Novacap, empresa de urbanização do DF, na qual morreu um trabalhador e dezenas ficaram feridos.
O comandante da PM, Antônio Ribeiro, não foi afastado do cargo sob a alegação de que não estava presente na hora do confronto. Ele disse que no momento da operação estava recebendo uma delegação estrangeira. "Na minha interpretação, houve força em excesso", criticou.
De acordo com uma nota oficial divulgada ontem pelo governador
os afastamentos são temporários e vão durar até que sejam apuradas as responsabilidades da operação da PM, que resultou na morte do servente José Ferreira da Silva. Castelo Branco garantiu que voltará ao governo após o final das apurações.
Em entrevista coletiva realizada à noite, o ex-secretário culpou os comandantes policiais da operação pela "fatalidade". "Eu tenho apenas o poder político", disse. O ex-secretário reconheceu que a ação na Novacap foi incorreta pois nela foi utilizada uma munição real, que não foi autorizada. "Me sinto traído pelo policial que tenha usado o armamento não autorizado", desabafou. Ele explicou que estava autorizado o uso de balas de borracha e gás lacrimogêneo.
Castelo Branco reconhece que as cenas do confronto prejudicam a imagem do governo do DF e dele próprio. O ex-secretário classificou a idéia do presidente Fernando Henrique Cardoso de a polícia não usar balas que matem como um "sonho" que também é dele. "A realidade é que a polícia ganha mal, se veste mal e não tem recursos", criticou.
"Meu governo não admite faltas nem excessos e não se deixa levar por julgamentos precipitados e ditados pela emoção", disse Roriz por meio de nota oficial. O governador permaneceu quase todo o dia reunido, em sua casa, com o secretário que foi afastado e outras autoridades. O novo secretário de Segurança tomou posse hoje mesmo. O ex-ministro do Superior Tribunal de Justiça José de Jesus Filho é o novo secretário de Segurança. Ele foi secretário-executivo do Ministério da Justiça quando a pasta era ocupada por Iris Rezende.
Horas antes de ser afastado do cargo, o ex-secretário de Segurança declarava que não abriria mão de seu posto. "Eu não peço demissão", disse. "Meu passado como advogado, como membro dos conselhos seccional e federal da OAB e membro da Comissão de Ética na política garantem a lisura na apuração dos fatos", afirmou.
"Se quiserem encobrir a apuração, me tirem do cargo, mas, se quiserem a lisura na apuração, me mantenham no cargo", disse. Mais tarde, porém, o próprio Castelo Branco acompanhou a posse do novo secretário.
Os líderes das duas principais centrais sindicais pediram ao ministro-chefe da Casa Civil, Pedro Parente, que a Polícia Federal assuma as investigações para apurar responsabilidades na morte de José Ferreira da Silva e o ferimento de outras pessoas. Mas o novo secretário de Segurança do DF considera que não há necessidade de transferir a investigação para a PF "por enquanto". José de Jesus Filho vai se reunir na segunda-feira com o ministro da Justiça, José Carlos Dias, para discutir o episódio.
Isenção - Na avaliação dos líderes, nem o governo do Distrito Federal, nem a Secretaria de Segurança, nem a Polícia Militar terão isenção para apurar os fatos. O presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva, pediu mais: ele quer a intervenção na PMDF pelo Palácio do Planalto. Segundo o sindicalista, isso poderia ser feito já que o governo federal paga a PM do Distrito Federal. Os pedidos foram encaminhados por Parente ao ministro da Justiça.
Hoje, Parente telefonou para Fernando Henrique - que pediu ao ministro que recebesse os sindicalistas, já que estava embarcando para o Rio de Janeiro - para fazer um relato das conversas com os sindicalistas, que foram ao Planalto com queixas em relação à atuação da PMDF em manifestações em Brasília.
Entre os presentes na audiência, além do presidente da Força Sindical, estavam o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Vicente Paulo da Silva, vários parlamentares do DF e o pai adotivo do funcionário morto, Jurandir Ferreira.
Vicentinho classificou como "inaceitável" e "absurdo" o que aconteceu na última quinta-feira. A CUT vai processar não só o secretário de Segurança Pública, que comandou a operação, como o governador Joaquim Roriz por responsabilidade na morte e nos ferimentos aos servidores.
Para Vicentinho, a demissão de Castelo Branco não é o suficiente. "Na capital da democracia, onde são realizadas dezenas de manifestações, não podemos ter um governador truculento como esse", desabafou Vicentinho, referindo-se a Roriz.

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