O Estado de Roraima poderá sofrer um incêndio dez vezes maior que o do ano passado, quando cerca de 13 mil quilômetros quadrados de florestas foram queimados, parte do lavrado destruído e a agricultura e pecuária tiveram prejuízos incalculáveis. Segundo a bióloga Adriana Moreira, que havia prevido o incêndio de 1998 um ano antes dele acontecer, há um grande número de árvores mortas que poderá servir de combustão, colocando cerca de 35 mil quilômetros de floresta na categoria de alto risco durante o período da seca, que começa em março.
A pior situação está na região do município de Mucajaí e na vila de Apiaú, por onde começou o incêndio do ano passado. Em um sobrevôo na área, Adriana Moreira constatou que em muitos lugares, há pelo menos 50% de árvores mortas por hectare. ‘‘Em muitos casos chega a 80%’’, diz Adriana, que é presidente do Instituto de Pesquisas Ambientais da Amazônia (Ipam), e responsável pela elaboração do mapa do arco do desmatamento, que enumerou as áreas de risco de incêndios florestais.
Atualmente, as manchas brancas deixadas pelas árvores mortas são visíveis dentro da mata. Segundo Adriana, a situação hoje pode ser considerada como de ‘‘alerta vermelho’’, identificação feita pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) das áreas que possuem alto risco de pegar fogo. ‘‘É preciso segurar esta região para evitar o pior, proibindo a realização de queimadas e expedição de licenças para desmatamentos na região’’, observa Adriana. ‘‘Além de tudo, é preciso intensificar as campanhas de esclarecimento da população durante os meses de fevereiro, março e abril’’, acrescenta.
Apesar de ser período de chuvas na Amazônia, as árvores destruídas pelo incêndio estão secando rapidamente. Como o inverno na região termina em março, o risco de a floresta pegar fogo é bem maior mesmo com uma estiagem branda, como está previsto para este ano, em função do fenômeno ‘‘La Ni¤a’’. ‘‘A tendência é a de que a vegetação que nasceu depois do incêndio, também não sobreviva e torne-se, também, material combustível para o fogo já que ela ficou exposta à insolação por causa das árvores queimadas’’, diz Adriana. ‘‘A floresta ainda está muito afetada, e só deverá começar a se regenerar, acabando com a situação de risco, em dois anos’’, explica a bióloga.
A presidente do Ipam faz o alerta baseado nos dados do aumento de biomassa seca, obtidos em outras queimadas na Amazônia. Segundo os levantamentos, a elevação cresce de 38 toneladas em uma floresta intacta para 176 toneladas em uma mata queimada pela primeira vez. Além disso, a velocidade do fogo cresce e as chamas se tornam mais quentes, altas e demoradas. As probabilidades de acabar o incêndio caiu de 95% para 25%. ‘‘A situação, neste ponto, já está incontrolável’’, diz ela.
O ministro do Meio Ambiente, José Sarney Filho, sabe dos riscos de novo fogo em Roraima, mas prefere apostar na criação das brigadas voluntárias, formadas por agricultores que foram vítimas do fogo no ano passado. ‘‘Não podemos nos enganar, o incêndio pode se repetir’’, afirma Sarney Filho. ‘‘Estamos fazendo de tudo para enfrentá-lo monitorando e conscientizando a população’’, acrescenta o ministro, que esteve na semana passada em Roraima entregando certificados aos integrantes da brigada que irão receber um salário mínimo mensal durante o período de estiagem, uma medida condenada pelo Banco Mundial, um dos financiadores do Proarco, um projeto de controle das queimadas no arco do desmatamento.
Apesar das campanhas do governo, alguns moradores do Apiaú ainda continuam queimando, apesar de proibidos pelo Ibama. Na semana passada, nem a presença de Sarney Filho na vila evitou que agricultores colocassem fogo em quatro áreas. ‘‘São clandestinas’’, disse o ministro ao governador Neudo Campos (PPB), que o acompanhava em uma região à beira da BR-174, parcialmente destruída por queimadas. A fogo só não se alastrou para um pasto por causa de um pequeno riacho. ‘‘Mas, agora parece que o governo federal está se antecipando’’, afirmou Campos, referindo-se à demora no combate ao incêndio do ano passado.
Apiaú está totalmente diferente da vila que em março do ano passado foi foco de atenção internacional por causa do incêndio. Os agricultores estão preparando a terra para começar as plantações, mas ainda espera a autorização do Ibama para começarem as queimadas. ‘‘Mas, desta vez, jamais ocorrerá outra situação como a de 1998’’, diz o agricultor Bruno Êloy, que comanda uma das brigadas. Ele perdeu parte de sua produção agrícola e teve seu lote quase que totalmente destruído pelo fogo.
Em outras áreas próximas à vila o verde tomou conta da paisagem que no ano passado estava queimada. Muitas vezes isso é aparente. ‘‘No meio da mata tem muita árvore caída e morta, um verdadeiro barril de pólvora’’, diz Adriana Moreira. ‘‘A mortalidade é muito grande’’, ressalta a bióloga do Ipam. Nas fazendas, diversos troncos de madeira queimada ainda mostram sinais do fogo que alastrou pela região. Mas, segundo Adriana, também representa muito perigo. ‘‘Como a madeira queimada tem menos resistência, torna-se, também, um combustível de alto risco’’.
Além de Roraima, os levantamentos feitos pelo Ipam apontam riscos de incêndio nos Estados de Mato Grosso e Pará. Segundo o mapa preparado pelo instituto, quatro fatores aumentam a propabilidade de tragédias florestais como ocorreu no ano passado: o déficit acumulado de precipitação é maior, os solos possuem pouca capacidade de armazenar água para as plantas, a extração seletiva de madeira é mais intensa e reduz a resistência da floresta ao fogo e o uso inadequado do fogo, uma tradição na Amazônia. ‘‘Nós apontamos uma área, só em Roraima, de 35 mil quilômetros quadrados que estão sob risco total de ser atingida pelo fogo’’, alerta Adriana Moreira.

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