Romaria da Terra reúne 30 mil pessoas
Israel Reinstein
De Curitiba
Romeiros vindo de todas as regiões do Estado participaram ontem 14ª Romaria da Terra do Paraná, no município de Rebouças, a 170 quilômetros de Curitiba. O evento, organizado pela Comissão Pastoral da Terra, defendeu mudanças na política agrícola, em especial aquela voltada à agricultura familiar. De acordo com a Polícia Militar, estiveram presentes cerca de 30 mil pessoas.
A Romaria pretende mostrar para a sociedade que a falta de uma política adequada para o setor significa um aumento dos problemas sociais nas cidades, avalia o bispo auxiliar de Curitiba, Dom Ladislau Biernaski. Segundo ele, o agricultor familiar está sem perspectiva para se auto-sustentar e, portanto, de quitar as dívidas hoje acumuladas com bancos. Existem muitos que estão tendo suas terras arrestadas pelo sistema financeiro, tornando-se novos sem-terras, diz.
Mauro FrassonEstímuloRomeiros decidiram reivindicar formalmente aos governos federal, estadual e municipais linhas de crédito mais baratasNos últimos quatro anos, prossegue o religioso, 400 mil famílias deixaram o campo, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). É o caso de Maria Brandão Luiz. Estou vivendo na cidade desde de 1996, por não conseguir me sustentar no campo, diz a agricultora de Sarandi. Com 61 anos, ela conta que tem sido difícil a adaptação na cidade. A nossa vida é na roça, mas, com tantos gastos e impostos, é duro conseguir se manter, afirma.
Por existirem situações semelhantes a de Maria, os romeiros pretendem formalizar um documento, pedindo aos governos federal, estadual e municipais linhas de crédito mais baratas. As taxas cobradas hoje são altas, mas mais importante, que anistiar financiamentos, é criar uma política agrícola, que estimule o plantio desses produtores, avalia o deputado federal Padre Roque Zimmermann (PT). Para ele, o agricultor não consegue pagar o que deve, porque não tem garantias que o resguarde quando ocorrem intempéries climáticas.
Investir do próprio bolso é impossível, porque não existem preços favoráveis para gente, conta a agricultora Marisa Damião Portela, de Teixeira Soares. Ela diz que há cinco anos não realiza nenhum benfeitoria em sua propriedade. A gente trabalha para pagar o que deve, afirma.
Para o deputado petista, a maioria dos agricultores familiares vivem da mesma maneira que Marisa. Os países desenvolvidos subsidiam a agricultura, diz. Este investimento acaba saindo mais barato, do que aqueles gerados pelo desequilíbrio social, afirma, acrescentando ser favorável a anistia dos agricultores, desde que associada a mudança na política agrícola.
Outra proposta que será levada para as prefeituras é de criar escolas rurais em todos os municípios do Estado, segundo Dom Ladislau Biernaski.
No Paraná existem 22 associações de agricultores familiares, que congregam 275 mil pessoas de 55 mil famílias. Juntas elas, produzem 42% de erva-mate, 33% do feijão preto, 48% do fumo e 37% de cebola do Estado. Além disso, cultivam 40% das hortaliças consumidas nas grandes cidades paranaenses.
No Paraná já foram realizadas 13 romarias, cada uma com temas específicos. A Romaria do ano passado aconteceu em Paranacity, região de Maringá, e reuniu 20 mil pessoas. Atualmente, 35% da população brasileira está em municípios com menos de 50 mil habitantes. São quase 27 milhões de pessoas vivendo no campo. A região Sul do Paraná tem 22 municípios, onde 65% da população vive na área rural. Apesar de ser a região que tem mais população vivendo no meio rural, apenas 35% das terras estão nas mãos de agricultores familiares.





