Vanderlei AlmeidaNovidadeAs escolas de samba do grupo especial vão poder, a partir deste ano, apresentar enredos estrangeirosA Acadêmicos da Rocinha abre hoje, às 19h30, o mais bonito e concorrido espetáculo do Carnaval carioca: o desfile das escolas de samba do grupo especial. Guardadas as devidas proporções, a beleza do show pirotécnico da Marques de Sapucaí é comparada às produções de Spielberg e Fellini. A grandiosa festa popular terá como marca este ano, a campanha para a cidade sediar os Jogos Olímpicos de 2004 e reunirá 64 mil componentes nas 16 agremiações que se apresentam hoje e amanhã, para um público estimado em 100 mil pessoas nos dois dias.
Brilho, cores e luxo são ingredientes indispensáveis à festa que terá uma novidade, considerada fundamental pelos carnavalescos: as escolas podem, a partir deste ano, apresentar enredos estrangeiros, sem a obrigatoriedade de temas baseados apenas nas histórias ou no folclore nacional. Mais: fora do Sambódromo, nos bairros das zonas Sul e Norte, o Carnaval promete resgatar as suas origens, com a volta dos blocos e bandas de ruas e bailes de fantasias.
Mas o auge ficará mesmo por conta das escolas de samba, seus passistas, enredos, fantasias, mulheres bonitas e musas de corpos esculturais. Todo este conjunto transforma a passarela do Sambódromo numa espécie de palco de muitos protagonistas anônimos que embelezam a festa. Gente humilde que desce os morros, sai das vielas das favelas e se junta a personagens famosos do cinema e da televisão com os mesmos objetivos: samba, cantar o samba-enredo e ajudar a escola a chegar ao título, num clima de muita alegria.
Originária da maior favela da América Latina, encravada entre os elegantes bairros da Gávea e São Conrado, a Acadêmicos da Rocinha faz a sua estréia na categoria das grandes escolas. Ao lado das consagradas Mangueira, Salgueiro, Portela, Mocidade de Padre Miguel e Imperatriz Leopoldinense, a Rocinha romete uma exibição apoteótica, com a qual espera se manter no grupo principal. A escola aposta no que considera ser de peso e criativo, o seu enredo inspirado na Disney e no malandro papagaio Zé Carioca - o mais carioca dos americanos. O tema estimulou e trouxe à cidade empresários da Disney que estarão atentos ao desfile e na forma de destribuição dos personagens da história entre as alas.
Os cem mil espectadores - - empresários, políticos, atletas, artistas, e o povão que dá o tom vibrande à festa - estarão distribuidos nas arquibancadas, cadeiras e nos luxuosos camarotes da passarela. O Sambódromo tem no total 85 mil metros quadrados, com área construída de 60 mil metros quadrados. A infra-estrutura inclui bares, restaurantes, médicos, bombeiros e outros serviços. A maratona de apresentações das escolas será transmitida em rede pelas Redes Globo e Manchete e o resultado da competição será conhecido na quarta-feira de cinzas, em apuração na Praça da Apoteose - o museu do samba e das brigas e lamentações dos perdedores. Sábado, dia 15, a Marques de Sapucaí volta a se transformar no palco do samba, com a apresentação das três primeiras escolas colocadas do grupo especial e as campeã e vice-campeã do segundo grupo.
A Secretaria de Segurança prometeu policiamento em toda área da Marques de Sapucaí. Foram mobilizados pelo menos três mil agentes federais, civis e militares para garantir a segurança do público, na parte interna e externa. Até uma delegacia especializada para atender turistas estrangeiros estará funcionando. Os turistas e o público em geral, foram aconselhados a utilizar transportes oficiais como metrô e ônibus para chegar ao Sambódromo, na Praça Onze, zona central da cidade. Todos os ingressos foram vendidos. A Riotur e a Liga Independente das Escolas de Samba, organizadoras do espetáculo, esperam uma arrecadação em torno de R$ 10 milhões. Há ainda, a receita originária da venda de transmissão e ação do desfile, cujo valor é um segredo guardado a sete chaves.
As previsões dos críticos, levando em conta os enredos, são variadas, mas indicam antecipadamente favoritismo duvidoso da Mocidade de Padre Miguel, Salgueiro, Portela e Mangueira. O resultado, entretanto, é imprevisível, reconhecem os especialistas. ‘‘Vai depender muito da forma de como as escolas vão se apresentar: as fantasias, a exibição da porta-bandeira e mestre sala e s quesitos que estarão em julgamento’’, analisa o crítico José Carlos Rego, autor do livro ‘‘Dança do Samba - Exercício do Prazer’’.
Rego não nega sua preferência pela Grande Rio, escola pequena e que, caso vença, será considerada zebra. O crítico destaca o balanço e a harmonia do samba da Grande Rio e, principalmente, a qualidade do enredo, que fala da ‘‘volta dos que não foram, lá no Guapor钒. O tema conta a história da construção da estrada de ferro em plena Selva Amazônica. Mostra ainda a saga dos imigrantes que nasceram e morreram na Ferrovia do Diabo, no Estado de Rondônia.

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