Roberto DaMatta dá sua receita para o Brasil
São Paulo, 14 (AE) - No segundo semestre de 1987, o antropólogo Roberto DaMatta deixou para trás quase tudo o que o incomodava no Brasil: o cinismo dos políticos brasileiros, a desvalorização do intelectual, o profundo desrespeito pelo ser humano. DaMatta mudou-se para os Estados Unidos, onde assumiu o posto de professor permanente da Universidade de Notre Dame, em Indiana. O exílio voluntário que deveria durar dois anos se estende até hoje, e é de lá que Damatta avalia o cenário brasileiro que pouco mudou desde sua partida, em uma coluna semanal. Ele é o mais novo integrante da equipe de articulistas da AGENCIA ESTADO.
Considerado um dos maiores antropólogos brasileiros, DaMatta é autor dos livros "O Que Faz o Brasil Brasil", "Carnavais, Malandros e Heróis" e "A Casa e a Rua", entre outros. Sua coluna semanal é publicada aos domingos pelo JORNAL DA TARDE, de Sao Paulo, e será distribuída como demonstração aos assinantes da AGÊNCIA ESTADO nas próximas quatro sextas-feiras, a partir desta. Durante este período, a publicação está liberada sempre aos domingos. Os interessados em adquirir a coluna de DaMatta após o período de demonstração devem entrar em contato com o departamento comercial da AE pelo telefone (011) 856.2700 ou pelo e-mail: [email protected] Descobrir o Brasil: as festas dos 500 anos Por Roberto Damatta
Um encontro sobre os rumos das comemorações dos 500 anos na casa de Helena Severo, secretária de cultura da cidade do Rio, motiva essa coluna. Como o encontro recebeu uma certa publicidade, quero registrar aqui o que disse e o que penso relativamente ao assunto naquela ocasião.
Faço-o como um exercício de reflexão relativamente aos estilos de comemorações coletivas. Cabe centralizar ou fragmentar? Ela deve ter um dono ou correr solta, como um carnaval? Que focos deverá ter? Essas são questões básicas que quero discutir. Quero também prestar contas já que fui convidado pelo presidente da República para ajudá-lo neste assunto. Vale, pois, prestar contas do que fiz e do que não pude fazer.
Depois do encontro com o presidente, escrevi um arrazoado para o vice-presidente, Marco Maciel, assinalando que, nos 500 anos, o nosso maior desafio era como juntar o cívico, o oficial e o estatal com a dimensão popular que, no caso brasileiro, se ordenava por meio de princípios inversos. O desafio, assinalei, era o de comemorar tanto o Brasil Estado-nacional (do qual somos críticos implacáveis) quanto o Brasil-sociedade e cultura. Em seguida, em sucessivas reuniões com o embaixador Sergio Amaral e com o publicitário Nizan Guanaes, tentei traçar planos para dimensionar duas áreas fundamentais das comemorações: a dos eventos propriamente ditos e o que os 500 anos ensejariam em termos da criação de algo mais duradouro. Algo que objetivasse uma proposta inovadora de pensar o Brasil. No fundo, essa segunda parte deveria ser um convite para descobrir o descobrimento naquilo que ele continha de eurocêntrico, de bolorento e de oficial. Em nenhum momento pratiquei o tal elitismo imputado aos acadêmicos. Que leiam a minha obra...
Em relação a isso, o projeto consistiria em veicular pela mídia vinhetas dos 500 anos, nas quais se instigaria a população a repensar (e a redescobrir) o Brasil. Por exemplo: uma dramatização de dois minutos traria Cabral ao Brasil de hoje e o expectador o veria perguntar coisas como: mas vocês têm essa pobreza toda? Têm todo esse preconceito? Têm todas essas crianças de rua? No que ele seria contestado ou informado do que estamos fazendo.
E surgiria a vinheta: Cabral descobriu o Brasil. E você está esperando o quê para descobri-lo? Do mesmo modo, Cabral ou outros vultos mais populares de nossa história seriam chamados para descobrir o Brasil pelo carnaval, pela religiosidade, pela literatura, pela música, pelas artes, pelo futebol, etc... Tudo isso encapsulado pela densa reflexividade contida no verbo "descobrir". Pois quem descobre está fadado a encontrar o outro o que leva a uma visão modificada de si mesmo.
Seria assim que o conceito histórico de "descobrimento" seria trabalhado e utilizado. Bem mais imaginativo, como se vê, do que as baboseiras politicamente corretas que querem esvaziar um mito fundacional legítimo ao chamar a atenção que foram os índios que descobriram Cabral. Claro que os índios descobriram Cabral: mas o processo foi mútuo e se houve a trágica destruição das sociedades tribais, a descoberta desse outro dentro da descoberta do "Brasil é o momento de um duro, tardio e mais do que necessário resgate.
Agora, no que diz respeito às coisas permanentes, tudo seria mais simples e direto: como assinalei inúmeras vezes, ficaria feliz se fossem produzidos 50 vídeos com a duração de uma aula, explicando o Brasil para os nossos tradicionais colonizadores. Tal exercício obrigaria ao auto-exame e nos livraria das ingenuidades dos documentários realizados com motivações apenas laudatórias.
Finalmente, quero registrar algo que disse na tal reunião. Sou radicalmente contra instituir um dono dos 500 anos. As comemorações dos cinco séculos de Brasil devem ter muitos centros, muitos eventos e muitas expressões. Tantas quantas são as caras e cores do Brasil. Coordenadores, sim; donos, jamais. Se o Brasil quer ser realmente liberal e, mais que isso, igualitário, ele tem de se habituar a ter muitos donos e múltiplas expressões. Como o Carnaval, os 500 anos são de todos, logo não podem ser de ninguém. Isso é que é, de fato, descobrir o Brasil!





