Rivais da guerra civil disputam segunda eleição moçambicana
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sexta-feira, 03 de dezembro de 1999
Por Andrew Selsky 
BOANA, Moçambique, 03 (AE-AP) - Um rivalidade que teve início no campo de batalha transferiu-se nesta sexta-feira (03) para as urnas quando Moçambique realizou a segunda eleição de sua história, com uma coalizão oposicionista com boas chances de assumir o controle do parlamento.
Acredita-se que o presidente Joaquim Chissano conquistará um segundo mandato nas eleições de dois dias. Mas sua Frente para a Libertação de Moçambique (Frelimo) - originalmente um grupo guerrilheiro marxista que combateu o regime colonial português - pode perder sua maioria no parlamento para a coalizão liderada pelo maior rival da Frelimo na guerra civil, disseram analistas.
Depois de assumir o poder quando Portugal abandonou Moçambique em 1975, a Frelimo trocou o nome das ruas da capital para Vladimir Lenin, Mao Tsé-tung e mesmo Kim Il Sung, o ditador norte-coreano. O símbolo nacional do país do sudeste da áfrica traz ainda um fuzil AK-47.
Chissano venceu a primeira eleição de Moçambique em 1994 depois que um pacto de 1992 pôs fim à guerra civil pós-independência. Ele é agora um defensor do livre mercado e um queridinho do Fundo Monetário Internacional (FMI) e outras agências de crédito. Ele privatizou a maior parte das indústrias estatais, reduziu a inflação e promoveu um estonteante crescimento da economia de 10% ou mais por ano.
Tal cenário é vital para a atração de investidores estrangeiros e para a criação de empregos num país que sobrevive largamente com uma ajuda estrangeira de US$ 800 milhões por ano.
Em Maputo, o boom é imediatamente percebido. Hotéis turísticos florescem na capital costeira e equipamentos pesados estão alargando as avenidas beira-mar. Nos arredores da cidade, companhias sul-africanas, japonesas, britânicas e moçambicanas construíram uma fábrica de alumínio, que deve empregar 3.000 pessoas.
Mas a economia partiu de uma base muito baixa e ainda tem de crescer muito antes de seus benefícios alcançarem a maioria das pessoas.
Dois terços dos moçambicanos vivem em pobreza absoluta e são analfabetos. A maioria trabalha em cultura de subsistência, sobrevivendo com menos de um dólar por dia. Muitos não têm acesso a cuidados médicos, mesmo com uma epidemia de aids infectando 20% da população. Muitos também sofrem de malária, outro grande matador nesta terra úmida.
Afonso Dhlakama, líder da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) que tentou derrubar o governo socialista com a ajuda da áfrica do Sul da era do apartheid e dos Estados Unidos, criticou duramente Chissano durante a campanha eleitoral, dizendo que a maioria dos moçambicanos está perdendo o trem da prosperidade.
Dhlakama é o único candidato disputando com Chissano a eleição presidencial.
Nas eleições parlamentares, a Renamo uniu-se a 10 pequenos partidos numa tentativa de assumir o controle do legislativo. A Frelimo controla hoje 129 cadeiras, contra 112 da Renamo.
A questão que irá definir esta eleição é se moçambicanos que vivem em vilas como Boana, onde mulheres lavam roupas num rio próximo e muitos residentes moram em palhoças, darão mais tempo ao partido de Chissano para cumprir suas promessas.
Parece que alguns estão dispostos a dar o crédito. Eliza Machava estava na fila de votação numa empoeirada escola nesta vila do sudoeste moçambicano com seu bebê num braço e segurando a carteira de indentidade com o outro. Depois de colocar seu voto na urna e afundar seu dedo indicador numa tinta rosa para evitar que votasse duas vezes, ele sentou-se sob uma árvore e deu de mamar para o bebê. Ele disse a um repórter que tinha votado na Frelimo. "Espero que a Frelimo consiga um trabalho para o meu marido", afirmou.
O sul de Moçambique é um bastião da Frelimo, enquanto que as regiões norte e central são pró-Renamo. Algumas regiões nortistas são tão atrasadas que não dispõem de estradas. Helicópteros e aviões militares sul-africanos estão ajudando a transportar material eleitoral para áreas remotas.
A Renamo tem acusado a Frelimo de favorecer o desenvolvimento de seu bastião sulista em detrimento de outras áreas.
Os resultados finais deverão ser divulgados 15 dias depois do fechamento, amanhã, das urnas. Não ficou claro quando resultados parciais serão anunciados. Estimados 7 milhões dos 19 milhões de habitantes do país estão aptos a votar.


