Rituais lembram morte de índio em Brasília
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domingo, 19 de abril de 1998
Sônia Cristina Silva Agência Estado 
Mais de 200 indígenas, representantes das tribos Xavante, Caiapó, Pancarau, Funiô, Terena, Guarani, Tucano e Pataxó, fizeram ontem, Dia do Índio, uma manifestação contra a impunidade e lembrando um ano da morte do pataxó Galdino Jesus dos Santos, queimado vivo por um grupo de adolescentes da classe média de Brasília. O local foi o ponto de ônibus, no Plano Piloto da cidade, onde Galdino foi queimado na madrugada do dia 20. Sem a presença de autoridades ou políticos, o ato reuniu os índios em cultos fúnebres e rituais.
Querem botar os bandidos na rua, mas nós não vamos deixar esse crime ser esquecido, dizia, revoltado Gajé Pataxó, primo e único parente de Galdino presente à cerimônia. Os índios não aceitam a decisão da juíza do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, Sandra de Santis, de converter o crime cometido pelos rapazes de homicídio triplamente qualificado para lesão corporal seguida de morte. Ela (a juíza) acredita que os meninos não tinham a intenção de matar, que era brincadeira, lamentou Gajé.
A pena prevista para lesão corporal é de oito anos, mas os quatro rapazes, que já estão há um ano presos, podem cumprir apenas um sexto da pena por bom comportamento. Há uma previsão de que o julgamento possa acontecer em agosto. Estamos aqui para protestar contra a falta de justiça, disse o pajé Itambé Pataxó. O líder tucano Álvaro fez críticas ao governo de Fernando Henrique Cardoso, segundo ele, omisso diante da violência.
A manifestação aconteceu diante do memorial erguido em homenagem à Galdino, índio ha-ha-hãe, da tribo Caramuru-Paraguassu, no sul da Bahia. Usando bordunas e flechas, os caiapó dançaram e cantaram. Os funió se reuniram, em seguida, em um canto fúnebre e fumaram cachimbo para evocar o espírito de Galdino. Eles fazem isso para tornar o espírito do companheiro mais alegre, contou Marcus Maciel, funcionário da Funai e um dos coordenadores do Comitê Galdino Pela Vida e Contra a Impunidade.
O ato chamou a atenção dos brasilienses. Os irmãos gêmeos Frederico e Rafaela, de cinco anos, acompanhavam todos os rituais. Quando Galdino morreu a escola deles fez um trabalho sobre a violência contra os indígenas e, agora, eles me pediram para participar da manifestação, contou a mãe das crianças, a funcionária pública Fátima Vieira.
Pajés e índios já estavam reunidos em Brasília desde o início da semana passada, em um encontro de 12 lideranças. Eles prepararam um documento cobrando das autoridades maior atenção. Se no início, erámos seis milhões, hoje somos só 300 mil, reclamam. Se paga caro por remédios que, na verdade, saíram da cabeça do povo indígena, diz um documento preparado pelos pajés, que pede ainda à Funai providências para averiguar a coleta de sangue entre índios dos povos Karitiana (AC) e Suruí (RO). Levaram o sangue para fora (exterior), dizem os pajés.
Depois de lembrarem a morte de Galdino do Santos, as lideranças indígenas se uniram aos integrantes de uma campanha pela paz, promovida por jovens e estudantes de Brasília.


