Johannesburgo - O fim das férias escolares na África do Sul puseram fim à temporada de cerimônias de iniciação de adolescentes, que deixou um balanço de pelo menos 24 mortos e 130 feridos e avivou a polêmica sobre esse costume e os pedidos para regulamentá-lo.
As vítimas são adolescentes que, em Gauteng, Cidade do Cabo ou Limpopo, sofreram, durante essas cerimônias, hemorragias internas causadas pelos maus tratos, infecções provocadas por circuncisões realizadas em más condições de higiene ou hipotermias por serem obrigados a passar a noite nus e à intempérie, em pleno inverno.
Esse tipo de ocorrência se repete todos os anos na África do Sul durante as férias escolares de inverno ou de verão. Nesse período, os meninos das etnias xhosa, sotho ou tswana passam vários dias ou várias semanas em retiro e provas rituais, que terminam com a circuncisão. Ao final desses ritos, deixam de ser considerados meninos e assumem a condição de homens.
Nelson Mandela, em sua autobiografia, ''Longo caminho para a liberdade'', escreveu páginas emotivas sobre esses dias, em que, aos 16 anos, passou por ''essa etapa principal da vida de um homem xhosa''. ''A partir de então, podia casar, fundar um lar e semear um campo. Podia ser admitido nos conselhos da comunidade, onde levariam a sério minhas palavras''.
A importância do rito e a pressão social continuam existindo, mas o contexto mudou. A urbanizaçao e a erosão da influência dos chefes tradicionais nas grandes aglomerações enfrentam a indignação de médicos e políticos quanto a esses procedimentos.
''Devemos falar dessa tradição e dos meios de controlá-la'', declarou o porta-voz da Câmara de Chefes Tradicionais, órgão consultivo criado em 1997. ''Já não existe uniformidade. Isso escapa a qualquer controle e há mais gente interessa em ganhar dinheiro do que respeitar a tradição'', afirmou. ''Espancar uma pessoa não é uma tradição, é uma vergonha'', enfatizou.
Vários acampamentos de iniciação foram fechados no final de junho e seus iniciadores acusados de homicídio.
A indignação e a mobilização política provocada este ano pela quantidade de vítimas poderá desembocar pela primeira vez na adoção de medidas para submeter a regras de segurança esses ritos tradicionais.

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