Riscos políticos cada vez mais preocupam investidores
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sexta-feira, 10 de setembro de 1999
Por MONICA YANAKIEW, correspondente 
Washington, 11 (AE) Na virada do século, os investidores de países industrializados estão mudando de atitude. Já não confiam apenas nos índices econômicos dos mercados emergentes, nem nas previsões otimistas de crescimento a partir do ano 2000.
Antes de arriscar seu capital querem saber mais sobre a situação política e social na América Latina, ásia e Europa do Leste.
"As avaliações de risco político nos países estão adquirindo cada vez maior importância", disse Bowman Cutter, diretor da empresa E.M. Warburg, Pincus & Co, que investe recursos dos fundos de pensões em ações de companhias.
"Eles consideram, com razão, que foram surpreendidos pela última crise financeira internacional por causa da falta de informações sobre a situação política das economias emergentes"
explicou.
Na ásia, a onda de violência que na última semana tomou conta do Timor Leste - resultando na morte de centenas de civis - acaba de confirmar as suspeitas dos investidores.
Desde 1975, quando essa ex-colônia portuguesa foi ocupada pela Indonésia, seus 800 mil habitantes exigem a independência e, em 20 anos de protestos, 25% deles foram mortos.
A comunidade internacional, entretanto, ignorou seu pleito. Motivo: tinha pouco interesse em irritar o governo de um dos "tigres asiáticos", cujo território é quase quatro vezes maior que a França.
A crise financeira internacional, desencadeada pela Tailândia em 1997, levou os investidores internacionais a prestarem maior atenção às questões políticas e sociais de países que, até então, vinham sendo avaliados apenas por seu brilhante desempenho econômico.
Elevados ao status de modelo para o resto do mundo, as economias emergentes do Sudeste Asiático e o Japão devem seus fracassos financeiros à corrupção, à falta de democracia e de transparência e às relações especiais entre o governo, os bancos e as empresas, acusam os analistas.
"O problema é que as reformas realizadas nesses países e também na América Latina e na Rússia foram menos profundas do que se pensava", explica David Rothkopf. Ele ressalta que tais reformas beneficiaram apenas um quarto da população e deixaram outros três quartos fora.
Rothkopf foi um dos principais responsáveis pela política de comércio internacional do governo do presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, e hoje preside o Newmarket Company.
No último dia 31, num referendo convocado pelo presidente da Indonésia, B.J. Habibie, e apoiado pelas Nações Unidas, a maior parte dos eleitores do Timor Leste votou pela independência. Logo em seguida, grupos armados que querem manter o território indonésio intacto e têm o apoio dos militares começaram a perseguir timorenses, jornalistas e funcionários das Nações Unidas, matando centenas de pessoas.
A violência preocupou o Fundo Monetário Internacional (FMI), que em 1997 negociou um pacote de ajuda financeira de US$ 42 bilhões à Indonésia - um dos cinco "tigres asiáticos", responsáveis pela última crise financeira, que acabou atingindo a Rússia e o Brasil.
"Os investidores ainda argumentam em números, mas o que realmente conta hoje é a percepção de que as reformas nos países emergentes não foram profundas", diz Rothkopf.
Para ele, a verdadeira reforma nos países emergentes só se dará "quando a estrutura de posse mudar". Até agora, diz ele, só houve uma transferência de empresas do Estado para famílias ou companhias internacionais.
"Parece um discurso de esquerda, mas o que quero dizer é que no Brasil o ideal seria um casamento entre o Lula (Luis Ignácio da Silva, do PT) e Margareth Thatcher (ex-primeira-ministra da Grã-Bretanha e árdua defensora do liberalismo econômico)", disse Rothkopf. "Ou seja, uma pessoa sensível aos problemas sociais, que sabe que a solução não é o socialismo, mas uma maior participação popular no mercado de capitais", acrescentou.
Segundo Rothkopf, as reformas que mantiveram as oligarquias no poder, tanto na ásia quanto na América Latina, estão sendo questionadas atualmente.
"No mundo inteiro isso está sendo questionado". disse. E citou como exemplo os chaebols da Coréia (conglomerados de empresas controlados por uma família) e denúncias de que a máfia domina a economia russa e a corrupção atinge diretamente o presidente daquele país, Boris Yeltsin.
Menos teórico e mais pragmático, Bowman Cutter diz que o investidor moderno só coloca seu dinheiro em empreendimentos de pouco risco, cujo funcionamento ele pode entender.
"A minha empresa, por exemplo, não investe em obras de infra-estrutura que dependem de um governo", disse Cutter.
"Investe em pequenas e médias empresas, principalmente na área de serviços e na Internet", acrescentou.
Nos países latino-americanos, as preocupações dos investidores também são mais políticas do que econômicas.
Segundo Carlos Janada, economista para a América Latina do banco de investimentos Morgan Stanley Dean Witter, "o problema é que hoje existe menos apoio político às reformas e uma certa desilusão da população em relação à economia de mercado".
Na Argentina, a campanha para as eleições de outubro próximo já reflete a insatisfação da população com a falta de respostas do governo para problemas sociais sérios, como o crescente desemprego.
O Chile é uma economia até há pouco tida como modelo na América Latina - também está em recessão e o futuro governo tem poucas propostas inovadoras para o futuro.
Brasil - Quando olham o Brasil, os investidores não medem apenas o tamanho do mercado ou seu potencial de crescimento. Ficam de olho também na popularidade do presidente Fernando Henrique Cardoso. "Se ele não tiver apoio popular, dificilmente poderá realizar a reforma da previdência social", explicou Janada.
Essa reforma passou a ser um símbolo de mudança. Tanto é assim que a incoerência de um sistema que distribui privilégios a aposentados de meia-idade foi capa do The Wall Street Journal - um importante formador de opinião pública nos EUA.
Segundo o economista Jeffrey Sachs, diretor do Centro de Desenvolvimento da Universidade de Harvard, o que importa hoje para o bom desempenho de uma economia é a democratização da educação.
Países como o Brasil, que gastam pouco em pesquisa científica, acabarão ficando a reboque das nações industrializadas - até no comércio de recursos naturais.
Os economistas, entretanto, também querem algo mais, além do salto tecnológico. Tanto os pensadores conservadores quanto os mais progressistas concluem que poucos eleitores das economias emergentes foram beneficiados pelas reformas.
Sem apoio político,concluem, não há mercado. E se houver
os riscos políticos para investir nele são altos.


