Risco de indexação de salários preocupa o governo
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terça-feira, 26 de outubro de 1999
Por Lu Aiko Otta 
Brasília, 27 (AE) - O risco da volta da indexação dos salários preocupa o governo, disse hoje o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Edward Amadeo. Ele alertou, porém, que as condições da economia, hoje, não são as mesmas que vigoravam nos tempos de inflação alta, quando a política de correção automática de salários esteve em seu auge. "A preocupação existe e é legítima; em tese, o risco da volta da indexação é inegável", disse ele. "Mas os fatos talvez possam dizer o contrário."
Amadeo fez essas observações ao comentar os acordos celebrados pelos bancários e pelos funcionários da Sabesp, que obtiveram aumentos salariais acima da inflação. Até antes do Plano Real, os acordos fechados pelos bancários serviam de referência para as outras categorias trabalhistas do País. O secretário disse que o "efeito farol", ou seja, uma categoria servir de guia para as demais, pode ocorrer. "Na Alemanha, são os metalúrgicos; basta eles negociarem, e as outras categorias simplesmente repassam o mesmo índice", exemplificou.
Ele acredita, porém, que as condições da economia brasileira, hoje, são muito diferentes das do final da década de 80. "Em primeiro lugar, não temos mais uma política salarial em vigor, que estabeleça reposições automáticas e lineares aos salários", observou. Amadeo lembrou que a existência de uma política salarial desse tipo não é garantia de ganho para o trabalhador. "Quando os mecanismos de reposição estiveram mais sofisticados, foi quando o salário real mais perdeu", lembrou.
Além disso, está em curso um processo de descentralização nas negociações salariais que não prevê mais os mesmos índices de reajustes salariais para um conjunto de empresas. "Hoje pesam muito mais as particularidades de cada uma", comentou. Isso porque, atualmente, as empresas precisam ser muito mais competitivas para sobreviver. Por isso, o custo de produção de cada uma é levado em consideração.
Na avaliação de Amadeo, a tendência é que uma ou outra categoria consiga reajustes acima da inflação. "Mas deverão ser situações localizadas", disse.
Inflação reprimida - A ausência de indexação salarial foi um dos fatores que impediu a volta da inflação logo após a desvalorização do real, e foi um dos elementos levantados pelo secretário para mostrar que não há inflação reprimida no Brasil, como afirmam alguns analistas.
Eles baseiam-se no fato de que os índices de inflação medidos no atacado estão abaixo daqueles medidos nos preços diretos ao consumidor. Haveria, portanto, um pedaço de inflação a ser repassado do atacado para o varejo.
Amadeo acredita, porém, que não há inflação a ser repassada. Em primeiro lugar, por razões metodológicas: os índices de atacado têm, em sua composição, uma quantidade muito maior de produtos comercializáveis com o exterior e são, por isso, mais sensíveis às variações de câmbio.
Já os índices de preço ao consumidor pesquisam principalmente os preços de serviços, que não são afetados pelo câmbio. Por isso, a diferença entre a inflação medida por cada um. Além disso, acredita ele, não haverá aumento de preços quando a economia voltar a aquecer-se, como acreditam alguns analistas, porque há capacidade ociosa na indústria. "A disputa pelo mercado tende a prevalecer sobre o reajuste nos preços", disse.


