São Paulo, 05 (AE) - É só chegar a época de chuvas para quem vive em encostas de morros e na beira de córregos ficar tenso. O risco de deslizamentos e inundações nas chamadas áreas de risco deixa moradores amedrontados e sem dormir. Alguns deles tentam evitar maiores problemas jogando pedaços de plástico preto sobre os montes de terra. Outros simplesmente rezam para que nada de mau aconteça.
"O relevo de São Paulo não é tão complicado", diz o coordenador de Urgências Urbanas e áreas de Risco da Secretaria das Administrações Regionais, Laerte Carnachioni Júnior. "Os maiores problemas são a ocupação desordenada e o déficit habitacional, que faz com que as pessoas busquem locais inadequados". O coordenador revela que existem hoje 237 zonas de risco na cidade, cuja situação praticamente não se alterou com as últimas chuvas. Mesmo assim, quem vê os cômodos da casa afundando dia após dia não consegue descansar.
"Estamos sempre olhando para ver se não está cedendo, porque com morro não se pode vacilar: quando você vê, já está caindo tudo", diz a dona de casa Sônia Maria Ribeiro, de 35 anos. Ela vive no Jardim Peri Alto, zona norte, com o irmão, o marido e sete filhos e há três décadas tem problemas com a chuva. Três anos atrás, Sônia teve de demolir um dos quartos e o quintal de sua casa, antes que eles despencassem e levassem o resto do imóvel junto. Banheiro - A dona de casa Eliete de Rezende, de 30 anos, está perdendo o banheiro de seu imóvel. O chão do cômodo e de um quarto cede a cada chuva e o jeito é refugiar-se na cozinha e no outro dormitório. Moradora do Jardim dos Francos, zona norte, há 15 anos, ela conta que vive com medo. "É duro dormir num lugar que está rachando; só ficamos mesmo pela ajuda de Deus e por falta de onde ir".
Na Rua Ari Carneiro Fernandes, no mesmo bairro, há outros imóveis em situação dramática. Na altura do número 103, uma casa de dois cômodos está amparada apenas por finas colunas. No alto, vive a dona de casa Erundina Ferreira Gonçalves, de 32 anos, com seu bebê. "Se cair, é uma tragédia para ela e para nós, que estamos na mira", conta a irmã e vizinha Maria Augusta. "Basta qualquer barulhinho para a gente já achar que está caindo tudo".
Apesar de reclamar da situação, alguns moradores recusam-se a sair das encostas. "Peço a Deus que me ajude a arrumar minha casa, mas não me mudo de jeito nenhum", garante a ambulante Sílvia Gonçalves Ladislau, de 28 anos. No domingo, o piso do quarto do barraco de Sílvia, na Rua Ugo Ítalo Meringo, Jardim Damasceno, também na zona norte, cedeu, depois de uma chuva, e ela teve de se mudar com o marido e quatro filhos para a casa de uma prima. "Deus vai me abençoar e a gente vai fazer outra casa no lugar".