Rir: um santo remédio
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segunda-feira, 03 de janeiro de 2011
Marcela Rodrigues Silva<br>Agência Estado 
São Paulo - Eram 4h da manhã e as gravações do humorístico ''SOS Emergência'', exibido recentemente pela TV Globo, terminavam. Mesmo com frio, sono e fome, Ellen Roche, intérprete da médica Luísa, manteve o bom humor e as risadas até o fim. O episódio, transmitido no mês passado, rendeu a ela elogios da equipe. ''É que, naquele frio todo, eu continuava rindo e não era de nervosismo. Era natural'', conta a atriz de 31 anos, conhecida como símbolo sexual - mas, para quem convive com ela, também por outra marca, que ultrapassa curvas e olhos azuis: o riso fácil.
No Carnaval de São Paulo deste ano, Ellen foi rainha da bateria da escola campeã Rosas de Ouro. Além da beleza estonteante e do samba no pé, qualidades de muitas das outras mulheres na avenida, parte da conquista foi atribuída ao sorriso ininterrupto da atriz. ''A avenida é um lugar de alegria e muitos risos. A rainha de bateria não pode ser só bonita. Tem que rir e fazer sorrir. E a Ellen representou isso muito bem'', afirma Angelina Basílio, presidente da escola.
''Fico muito feliz com os elogios que dizem respeito ao meu humor, pois há muitas mulheres bonitas. Mas poucas são bem-humoradas naturalmente e vão além daquele sorriso de foto'', diz Ellen. Além da carreira, ela aponta o riso como item determinante na vida pessoal. Para ela, o bom humor atrai pessoas interessantes e afasta as mal-intencionadas. ''Quem está intimidado por estar diante de uma mulher bonita, relaxa. Já os engraçadinhos desistem de me cantar de forma mais agressiva.''
Elas riem menos - Especialistas ouvidos pela reportagem garantem que o riso abre portas em todas as áreas da vida. Do trabalho ao amor. Ellen, portanto, faz parte de uma minoria abençoada com essa postura diante da vida. É que, segundo a antropóloga Mirian Goldenberg, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), elas riem menos do que eles.
Em pesquisa realizada com cariocas (que, segundo Miriam, representam as tendências do resto do País), as mulheres têm receio de rir. ''Por medo de perderem a seriedade e parecerem fúteis ou vulgares'', diz a pesquisadora. ''As mulheres já têm que provar tanta coisa na sociedade, acabam pecando pela cautela'', explica.
Já os homens saem na frente porque riem mais de si mesmos (50% deles, contra 28% delas) e até de assuntos banais. Além disso, 65% deles dizem que se acham engraçados, ante apenas 30% das mulheres. ''Eles veem a vida com mais leveza e acham que ser mal-humorado é um defeito. Já elas veem seriedade e comprometimento em quem não ri.''
Outro resultado curioso da análise de Mirian é que as mulheres riem mais ''com'' eles - que, por sua vez, riem mais ''entre'' si. ''E, na maioria das vezes, o motivo do riso masculino é banal. Eles riem uns dos outros ou de piadas aparentemente bobas'', comenta. A pesquisa mostra também que, para os homens, o maior capital com relação à risada são os amigos.
A tese da antropóloga revela ainda que as próprias mulheres reconhecem essa condição. A maioria delas garante que quer rir mais e até sabe como começar. ''Entre as entrevistadas, 60% admitiram que gostariam de levar a vida com mais humor. Elas dizem que se preocupar menos e até se levar menos a sério são fatores que podem contribuir para isso'', diz. ''No fundo, essa é uma marca positiva dos brasileiros. Portanto, só traz benefícios'', conclui Mirian.
Reconheça o limite - Para a vice-presidente da Sociedade Brasileira de Coaching (SBC), Flora Victória, as mulheres não precisam mesmo ter tanta cautela. ''A risada, mais do que o sorriso, é um sinal verde para as relações mais próximas. Pode facilitar a convivência no trabalho ou num momento pessoal'', diz.
No entanto, a especialista pondera que, nas relações pessoais, é preciso olhar para o outro e perceber quando é o momento de parar. ''Em alguns lugares e ocasiões, como no trabalho, o riso tem de ser mais contido para não atrapalhar. A ideia não é ser falso, mas se adaptar às circunstâncias'', explica. ''O fato de você conter uma gargalhada não é sinal de que perdeu a espontaneidade, mas que pensou na melhor maneira de conviver com o outro'', conclui Flora.
E foi exatamente esse bom-senso mencionado pela especialista que tornou o pernambucano Ailton Manoel da Silva, 42 anos, há quase 25 em São Paulo, um dos garçons mais queridos da capital. Prova de que no universo masculino, também há limite para o riso. ''Não sou de ficar contando piada, de procurar motivo para dar risada com os clientes. Expresso meu bom humor por meio da gentileza. Até meu sorriso é discreto, mas não falta'', conta. ''Quando o riso é falso, só para conquistar, as pessoas percebem'', opina.
O empresário Helton Altman, sócio-proprietário dos bares Filial, Genésio e Genial (onde Ailton está atualmente), na Vila Madalena, zona oeste de São Paulo, confirma as qualidades do funcionário que, segundo ele, é especialista na arte de arrancar sorrisos dos clientes. ''Há alguns anos, após receber uma proposta irrecusável, ele foi trabalhar em outro bar. O dono apostava na simpatia do Ailton para conquistar a clientela'', lembra.
Cerca de seis meses depois, Ailton acabou retornando à antiga casa. ''Tive de atender aos pedidos dos fregueses, que não paravam de reivindicar a volta dele. Entramos em acordo e foi ótimo'', conta Helton. Ele afirma que vários de seus garçons riem o tempo todo e são excelentes funcionários. ''Mas o Ailton tem bom humor na medida certa, de acordo com o estilo da pessoa com quem ele convive. Certamente é isso que faz dele um profissional tão disputado'', diz.
Conquista - Algumas pessoas, independentemente de um corpo ou rosto bonito, seduzem pelo bom humor. É o caso do promotor de vendas Thiago Varga, 26 anos, conhecido pelo sorriso aberto e a risada extravagante. ''Acho que pessoas emburradas ficam menos bonitas do que as risonhas. Para mim, o sorriso é uma arma de sedução'', afirma o promotor.
Thiago já levou bronca por causa da risada alta, mas, por outro lado, o riso fácil o ajudou a conquistar a namorada Bárbara Cardoso, 20 anos, com quem está há 1 ano e 4 meses. ''A risada e o bom humor foram as primeiras qualidades dele que me chamaram a atenção. Eu também sou muito risonha. Isso nos aproximou'', conta Bárbara. E, assim como revela a pesquisa de Mirian Goldenberg, Bárbara confirma que Thiago ri mais do que ela. ''Ele dá risada de tudo. Mas rimos muito juntos também.''
Para Marina Vasconcelos, terapeuta de casais e família, o que aconteceu com Thiago e Bárbara é muito comum. ''Um sorriso a gente dá até para pessoas estranhas. Mas rir junto demonstra intimidade. É uma abertura para criar laços. Por isso faz parte da paquera'', explica. Marina lembra, ainda, que a maioria das pessoas se vê mais bonita rindo. ''Quando uma pessoa não ri junto com o parceiro, ou dá risada de coisas diversas, algo não vai bem'', alerta a especialista.
O riso e o bem-estar - Pesquisa realizada pelo Centro Médico da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, em parceria com a Academia Americana do Coração, apontou que uma única risada dilata o sistema cardiovascular, eleva a pressão arterial, contrai o diafragma e massageia os órgãos internos. O psicobiólogo Ricardo Monezi, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), explica que é por isso que, após rirmos muito, sentimos fadiga. ''Está provado: rir faz bem para a saúde física e mental, além de ser uma válvula de escape para enfrentar as adversidades da vida'', afirma.
Quem ri quando está nervoso ou com dor, por exemplo, está ativando mecanismos que diminuem o mal-estar, lembra Monezi. Prova disso é a tradição do projeto Doutores da Alegria, uma ação não governamental cuja proposta é levar o trabalho de artistas profissionais e especializados na arte do palhaço a hospitais infantis. A inspiração veio do programa ''Clown Care Unit'', de Nova York, lançado em 1986 pelo ator Michael Christensen. No Brasil, foi implementado pelo ator Wellington Nogueira. A prática vigora há 19 anos e é adotada em 14 hospitais, 8 deles em São Paulo.


