Rio perde o produtor cultural Albino Pinheiro
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quarta-feira, 23 de junho de 1999
Por Beatriz Coelho Silva 
Rio, 24 (AE) - O Rio amanheceu hoje menos festeiro. O produtor cultural Albino Pinheiro, criador da Banda de Ipanema e do Projeto Seis e Meia, morreu de madrugada, no Hospital do Clementino Fraga, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na Ilha do Fundão, vítima de uma parada cardíaca. Ele tinha um câncer na medula, só revelado aos amigos em outubro do ano passado, quando fez um transplante. Pinheiro foi enterrado no fim da tarde de hoje no cemitério São João Batista, após ser velado no Teatro João Caetano, no centro do Rio, onde gostava de passear e tomar o chope gelado de todo dia. Além de sua filha, Paula e dos seis irmãos, mais de 300 artistas e amigos acompanharam o enterro, cantando marchinhas de carnaval e "Carinhoso".
"Perdi um irmão", lamentou o jornalista e escritor Sérgio Cabral, seu amigo há mais de 40 anos. "Disseram uma vez que ele era o prefeito espiritual do Rio com toda razão, pois amava esta cidade com uma generosidade que o fazia inventar novidades para alegrá-la". Albino Pinheiro tinha 65 anos e atualmente trabalhava nos projetos "Seis e Meia", do João Caetano, "Choro no Sábado" (concerto de chorões na Assembléia Legislativa) e "Música nas Escolas". "No último mês ele estava meio tristinho, mas continuava com planos e trabalhando muito", disse no velório a artista plástica Rose Nicolau, sua namorada há cinco anos. "No sábado, ele me deu um quadro, dizendo que era para eu não me esquecer dele nunca".
Até a sexta-feira passada, Albino Pinheiro trabalhou normalmente no Teatro João Caetano. Sentiu-se mal e no fim de semana e foi internado na terça-feira. Sua morte pegou de surpresa amigos e artistas que trabalharam com ele. O produtor cultural Hermínio Bello de Carvalho comentava que uma pessoa tão festeira só poderia morrer mesmo no dia de São João, uma data que Albino adorava. "Ele nos ensinou a amar o Rio porque valorizava os botequins, os subúrbios e as festas cariocas", disse. Albino Pinheiro, Sérgio Cabral e Hermínio Bello de Carvalho formavam, desde os anos 60, um trio de agitadores culturais que buscavam valorizar o que o Rio tinha de melhor. Mas as idéias eram sempre de Albino, esclarecem os outros dois.
"Em 1966, ele inventou a Banda de Ipanema, para animar o carnaval de rua e, em 1976, ele me chamou para fazer o "Seis e Meia", contava Hermínio. "Quem vai fazer o que ele fazia?", indagava a cantora Joyce, que fez uma das últimas entrevistas com Albino Pinheiro, em seu programa "Cantos do Rio", exibido na TV Educativa, na quarta-feira da semana passada. "O problema é que pessoas como ele morrem e não tem gente para ficar no lugar". Joãozinho Trinta, que conheceu Albino no início dos anos 50, quando chegou do Maranhão para estudar balé clássico no Teatro Municipal, foi um dos primeiros a chegar ao velório e lamentava. "O Rio perdeu seu grande festeiro".
Albino era carioca da gema, nascido em Laranejrias, mas morava em Ipanema desde os anos 60. Além do "Seis e Meia" e da Banda, ele fez voltar à moda os bailes com grandes orquestras, no início dos anos 60, o que o fez amigo de Severino Araújo, da Orquestra Tabajara, que ele fez voltar a ativa com tanto sucesso como nos anos 40 e 50. "O Severino vai ficar arrasado", comentava dona Neuza Araújo, mulher dele. Outros artistas como Beth Carvalho, Alcione, Zeca Pagodinho e Moreira da Silva reservavam sempre uma data no ano para se apresentar no "Seis e Meia", uma idéia que Albino teve quando era diretor do Teatro Caetano.
No sepultamento havia desde a vice-governadora do Estado
Benedita da Silva, ao cantor da Jovem Guarda, Jerry Adriani, sinal do círculo eclético que Albino sempre frequentou. Seu caixão foi coberto com as bandeiras da Escola de Samba Portela e do Fluminense, suas grandes paixões. Hoje mesmo os amigos de Albino Pinheiro enviaram mensagem à Câmara Municipal do Rio sugerindo que o largo existente entre o Teatro João Caetano e a Rua Luiz de Camões passe a se chamar Albino Pinheiro. A vice-presidente da Fundação de Artes do Estado do Rio (Funarj), Bete Mendes, disse que a mudança pode ocorrer nos próximos 30 dias "e será a primeira das muitas homenagens que ele receberá".


